A troca de experiências como base para o empreendedorismo jornalístico local

(Foto: StockSnap/Pixabay)

O debate sobre os rumos do jornalismo local está assumindo uma nova cara em decorrência do aumento da complexidade e diversificação dos problemas enfrentados por quem decidiu apostar nesta modalidade de produção de notícias. Cresce a percepção de que os dados obtidos através de experiências exitosas ou fracassadas precisam ser compartilhados para que os empreendedores tenham elementos para avaliar melhor os públicos e as realidades envolvidas nos projetos que desenvolvem.

Aumentou muito o número de jornalistas que apostam no noticiário local depois da onda de demissões na grande imprensa e do reconhecimento da importância da informação local na sobrevivência da democracia em comunidades sociais. O problema é que aumentou também o número de projetos fracassados por falta de conhecimento mais detalhado sobre a arena local.

Já existe um acervo razoável de hipóteses, pesquisas e trabalhos teóricos sobre o papel e as práticas de jornalismo local em curso, especialmente nos Estados Unidos, em alguns países europeus, na Ásia e na América Latina. Estes trabalhos coincidem na constatação de que a falta de dados sobre as diferentes realidades locais dificulta o desenvolvimento de soluções adequadas para situações muito diferentes umas das outras.

Cada cidade, bairro ou comunidade periférica tem características próprias e a identificação desta especificidade é essencial para o sucesso de cada projeto. Esta é uma lição deixada por centenas de experiências frustradas. Seus responsáveis deram mais importância política às perspectivas futuras do jornalismo local do que ao relacionamento com membros de comunidades.

A experiência já mostrou que os dados demográficos de uma cidade, bairro ou comunidade não são suficientes para identificar as motivações que levam as pessoas a não valorizar as notícias locais e, consequentemente, a não pagar por elas. Este é um campo em que as consequências de erros e acertos podem ser minimizadas pelo compartilhamento de experiências. O compartilhamento e a colaboração passam a ser quase obrigatórios.

O empreendedorismo como ferramenta obrigatória

A troca de experiências entre empreendedores jornalísticos locais no estado de Nova Jersey, nos Estados Unidos, segundo o relatório 2024 do Center for Cooperative Media, da universidade estadual Montclair, indicou que a lógica dos moradores de pequenas e médias cidades para participar financeiramente da produção de notícias locais não é a mesma daquela seguida por jornalistas. As pessoas, especialmente os assalariados de baixa renda, pensam primeiro no seu orçamento, enquanto os profissionais focam nos custos de produção da notícia. Se os jornalistas não entenderem este comportamento terão muita dificuldade para levar adiante seus projetos.

Os pesquisadores acadêmicos e profissionais no jornalismo local identificaram dois desafios críticos e ainda insolúveis: a sobrevivência financeira e a perda de público. Há vários outros problemas desafiadores, mas estes dois são hoje o foco da maior parte das discussões. A sustentabilidade econômica e a migração de público para as plataformas digitais (Facebook, TikTok Instagram e outras) são dilemas cuja solução depende da gestão de recursos humanos, financeiros e tecnológicos, ou seja, de técnicas e estratégias de empreendedorismo.

O compartilhamento de dados ajuda a descobrir soluções inovadoras cuja aplicação concreta vai depender do desenvolvimento de práticas gerenciais normalmente enquadradas dentro do que chamamos de governança (1). A cultura predominante nas redações sempre foi a de que o jornalista é apenas um assalariado que produz notícias, enquanto a administração e as finanças ficam a cargo dos executivos e donos de empresas.

Mas agora, na era digital, o exercício do jornalismo deixa cada vez mais de estar ligado a empresas e mais vinculado à atividade autônoma em blogs, newsletters e espaços individuais em plataformas digitais. No jornalismo local, a busca de notícias passa a estar diretamente vinculada à capacidade individual ou em pequenas equipes de administrar a produção, edição e distribuição de informações.

Notas

[1] Governança é um sistema de princípios e mecanismos que orienta a gestão e a tomada de decisões. O objetivo é administrar as relações entre as pessoas e as instituições públicas ou privada

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Carlos Castilho é jornalista com doutorado em Engenharia e Gestão do Conhecimento pelo EGC da UFSC. Professor de jornalismo online e pesquisador em comunicação comunitária. Mora no Rio Grande do Sul.

 

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