O retorno do mercantilismo na América de Donald Trump

(Foto: Gerd Altmann/Pixabay)

A eleição de Donald Trump em 2016 marcou uma inflexão na trajetória econômica e política dos Estados Unidos e do sistema internacional. Sua proposta de “America First” reacendeu práticas e discursos que muitos acreditavam superados. Ao resgatar o protecionismo como eixo central de sua política econômica, a competição interestatal e uma lógica de soma zero, Trump reeditou, sob novos contornos, um velho conhecido das teorias econômicas: o mercantilismo. Em pleno século XXI, a maior economia do planeta reviveu um modelo que se acreditava sepultado com o advento do capitalismo industrial e do livre-comércio.

Este artigo propõe uma análise crítica e heterodoxa da política econômica trumpista e suas relações com o mercantilismo, entendendo que o fenômeno não se limita a uma simples regressão ideológica. Ao contrário, o trumpismo econômico revela contradições profundas do capitalismo contemporâneo e do sistema financeiro globalizado. Ele expõe as falhas do neoliberalismo, mas oferece respostas que, sob o pretexto de proteger o trabalhador americano, reforçam dinâmicas de exploração, exclusão e desigualdade.

O mercantilismo reimaginado: comércio como competição e conflito

A historiografia tradicional, fundada na crítica de Adam Smith, retrata o mercantilismo como uma doutrina obsoleta, restrita a uma visão fixa da riqueza e a práticas de exploração comercial. No entanto, como ressaltam Stern e Wennerlind (2013), o conceito de mercantilismo precisa ser reavaliado, pois, mais do que uma teoria econômica, tratava-se de uma prática de governança que integrava comércio, guerra e política como dimensões indissociáveis de um mesmo projeto de poder.

John Shovlin (2013) argumenta que, no contexto do mercantilismo clássico, o comércio internacional era visto não como um instrumento de cooperação, mas como um campo de batalha. A competição entre Estados pela primazia econômica estava diretamente relacionada à guerra e à diplomacia. O comércio exterior era um mecanismo para acumular recursos e financiar capacidades militares. Em sua análise, Shovlin propõe que a paz e o comércio eram concebidos pelos contemporâneos não como esferas opostas, mas como extensões das rivalidades geopolíticas.

Esta visão lança luz sobre o comportamento de Donald Trump no cenário econômico internacional. Ao adotar uma retórica e uma prática que trata as relações comerciais como conflitos a serem vencidos, Trump revigorou a lógica da competição estatal, característica do mercantilismo, mas aplicada a um mundo globalizado, interdependente e financeirizado.

O retorno do Estado intervencionista?

A primeira constatação que se impõe é o papel proeminente do Estado nas ações econômicas de Trump. Apesar de discursar contra o “big government”, sua administração intensificou o uso de tarifas alfandegárias, subsídios seletivos e medidas coercitivas no comércio internacional. Em 2018, impôs tarifas de 25% sobre o aço e 10% sobre o alumínio importado, argumentando que a segurança nacional estava em risco. A guerra comercial com a China, que resultou em centenas de bilhões de dólares em tarifas, tornou-se o símbolo máximo desse neomercantilismo.

Ao priorizar a balança comercial como indicador de sucesso, Trump resgatou um princípio central do mercantilismo clássico: a ideia de que o enriquecimento nacional depende do acúmulo de superávits comerciais. Heckscher (1935), em sua clássica obra Mercantilism, lembra que essa doutrina via o comércio como um jogo de soma zero, onde o ganho de um país era a perda de outro. Trump parece compartilhar dessa visão, ao retratar a relação comercial com a China como uma “exploração” dos EUA e ao exigir renegociações bilaterais como o USMCA (novo NAFTA), visando maior “vantagem” para o lado americano.

Trata-se, novamente, de uma reedição do unilateralismo mercantilista, no qual os Estados buscavam vantagens individuais em detrimento de acordos de benefício mútuo. As guerras comerciais travadas pela administração Trump não foram simples disputas econômicas; eram compreendidas como batalhas estratégicas para restaurar a grandeza americana no sistema internacional.

No entanto, a heterodoxia crítica deve ressaltar que este retorno ao Estado intervencionista não visa um desenvolvimento inclusivo ou sustentável, mas sim a defesa dos interesses de segmentos específicos do capital industrial e financeiro. Não houve uma política de reindustrialização robusta ou de fomento à inovação tecnológica com inclusão social. O foco foi proteger setores tradicionais em declínio (como o aço e o carvão), sem apresentar um projeto econômico de longo prazo.

Mercantilismo, nacionalismo econômico e a criação do “outro”

O mercantilismo sempre esteve associado à construção do Estado-nação moderno. Ao adotar uma postura econômica nacionalista, Trump reforçou a identidade americana como uma fortaleza sitiada pelo “outro”: sejam os imigrantes, sejam os produtos chineses ou o petróleo do Oriente Médio. A política de imigração restritiva, aliada ao protecionismo comercial, compõe um discurso de autossuficiência que remete à lógica autárquica dos Estados mercantilistas europeus dos séculos XVI e XVII.

Contudo, como Ellen Wood (2003) destaca em O Espírito do Capitalismo, o mercantilismo não era apenas uma política econômica, mas um projeto de dominação que misturava guerra, conquista colonial e exploração. Trump, ao aumentar os orçamentos militares, ao pressionar aliados da OTAN por maior contribuição financeira e ao instrumentalizar sanções econômicas contra adversários (Irã, Venezuela, Rússia), reforçou essa combinação de economia e força militar, atualizando a lógica mercantilista para a era do império global.

Wood também observa que o mercantilismo clássico foi crucial na formação do Estado-nação moderno, coordenando interesses econômicos e políticos em projetos de longo prazo. Trump, no entanto, instrumentalizou o protecionismo como ferramenta de discurso populista, sem articular políticas industriais estruturais ou investimentos em inovação que pudessem garantir a revitalização da economia americana.

Neomercantilismo ou capitalismo de Estado populista?

A doutrina econômica de Trump não se encaixa perfeitamente nas categorias clássicas do mercantilismo. Sua versão é moldada pelas contradições do capitalismo financeiro atual. Barry Eichengreen (2017) descreve a política comercial de Trump como um “neomercantilismo improvisado”, carente de uma estratégia coesa. Embora proteja determinados setores, não rompe com a lógica especulativa do capital financeiro que domina a economia americana desde os anos 1980.

A redução dos impostos corporativos (de 35% para 21%) e a desregulamentação financeira beneficiaram principalmente o 1% mais rico da população americana. A promessa de “trazer empregos de volta” para a classe trabalhadora não se concretizou de forma substancial. A guerra comercial com a China aumentou os custos de importação para empresas e consumidores americanos, prejudicando a renda real das famílias trabalhadoras e pequenas empresas.

Joseph Stiglitz (2018), crítico ferrenho das políticas trumpistas, aponta que elas não enfrentaram o problema central do capitalismo americano: a financeirização extrema e a captura do Estado pelos interesses do grande capital. Ao priorizar a balança comercial em detrimento da qualidade dos empregos e da distribuição de renda, o trumpismo produziu um capitalismo de Estado populista, que usa medidas protecionistas como espetáculo político, mas não altera as engrenagens fundamentais da desigualdade.

O Limite Heterodoxo do Modelo Trump

Do ponto de vista heterodoxo, a política econômica de Trump falha em reconhecer que o protecionismo, por si só, não é uma panaceia. O Estado pode e deve atuar como indutor do desenvolvimento, mas isso exige políticas industriais consistentes, regulação financeira robusta e compromisso com a redução das desigualdades. A simples imposição de tarifas ou o fechamento de fronteiras não garantem crescimento econômico sustentável.

Como Fernando Novais (1979) observa em O Capitalismo Comercial, o mercantilismo colonial português ilustra bem os limites de um sistema que privilegia a acumulação primitiva sem construir bases sólidas de desenvolvimento interno. A versão contemporânea do mercantilismo trumpista repete esse erro: busca ganhos de curto prazo para setores específicos, sem fomentar uma transformação estrutural que permita à economia americana superar a crise de produtividade e inclusão social que a afeta há décadas.

Considerações finais: o legado do neomercantilismo trumpista

O legado da política econômica de Donald Trump é ambíguo. Se, por um lado, expôs as fragilidades e contradições da globalização neoliberal, por outro, ofereceu respostas que reforçam o autoritarismo, o nacionalismo xenófobo e a exclusão. Sua versão do mercantilismo é, no fundo, uma tentativa de restaurar a hegemonia americana a partir de uma lógica de confronto, em vez de cooperação.

Do ponto de vista heterodoxo, o desafio é propor alternativas que resgatem a centralidade do Estado no planejamento econômico, mas de forma democrática, inclusiva e sustentável. O protecionismo vazio e o nacionalismo econômico exacerbado são atalhos perigosos que podem agravar ainda mais as crises globais de desigualdade, clima e governança.

Trump não foi um visionário econômico, mas sim um sintoma das crises estruturais do capitalismo global. Sua política econômica reeditou a lógica mercantilista sem oferecer as soluções de longo prazo que o próprio mercantilismo clássico buscava, ao menos teoricamente, através do fortalecimento do Estado e da organização econômica nacional.

Bibliografia

– Eichengreen, Barry. The Economic Consequences of Mr. Trump. 2017. 

– Heckscher, Eli F. Mercantilism. 1935.

– Novais, Fernando. Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial, 1979. 

– Stiglitz, Joseph E. The Tragedy of the Trump Trade Policies. 2018.

– Wood, Ellen Meiksins. O Espírito do Capitalismo. 2003.

– Shovlin, John. War and Peace: Trade, International Competition, and Political Economy. In: Stern, P. J. & Wennerlind, C. (Orgs.). Mercantilism Reimagined: Political Economy in Early Modern Britain and Its Empire. Oxford University Press, 2013.

– Stern, Philip J.; Wennerlind, Carl (Orgs.). Mercantilism Reimagined: Political Economy in Early Modern Britain and Its Empire. Oxford University Press, 2013.

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Taís Alfredo é estudante de Economia da Universidade de Campinas (Unicamp).

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