Cobertura titubeante do julgamento de golpistas coloca todo o jornalismo em risco

(Reprodução)

Muito antes de me tornar jornalista, a política fazia parte do meu dia a dia. Meus familiares eram brizolistas ferrenhos e, por razões compreensíveis, não gostavam do jornalismo praticado pelos veículos da família Marinho.

E o que eles faziam a respeito disso? Assinavam o Jornal do Brasil e viam o Jornal da Manchete. Simples assim. Anos de repressão deram a eles a noção clara de que criticar a imprensa era válido (e necessário), mas intimidar, jamais!

Atualmente, estou um pouco afastado das redações e ganho a vida com o que se chama de “conteúdo online”. Mas nunca me afastei do jornalismo de fato. Faço parte da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo e convivo com jornalistas o tempo todo.

Por conta disso, em apenas uma semana de março de 2025, vi de perto como a profissão tem se tornado cada vez mais árida. Jornalismo é atividade de risco desde que o mundo é mundo. Já andei de carro blindado e com colete à prova de balas algumas vezes. Mas nunca tinha vivido a sensação de estar em perigo apenas por carregar no peito o crachá de um veículo.

Foram sete dias de susto no mês em que a saída dos militares do poder completou 40 anos. Primeiro, reencontrei pessoalmente um amigo colunista mais ligado ao campo conservador, num bairro pacato de São Paulo. De repente, enquanto conversava com ele, um sujeito surgiu do nada, vociferando agressões verbais. Apesar de ser alinhado à direita, esse amigo é crítico do bolsonarismo e, por isso, tratado como traidor de uma causa que ele nunca se dispôs a defender.

Três dias depois, soube da intimidação sofrida pelo repórter Thiago Herdy, que publicou no UOL reportagens incômodas ao prefeito bolsonarista Ricardo Nunes. Seus dados e de seus familiares foram vazados em um site anônimo.

Então, veio o pior: a violência subiu ainda mais de tom, com extremistas de direita ameaçando Gabriela Biló e Thaísa Oliveira, profissionais da Folha de S. Paulo, por conta do “crime” de fazer a cobertura da intentona golpista de 8 de janeiro de 2023.

Claro que o discurso dos fanáticos não é simples assim. Alimentados pelo ódio e desinformação, os “tiozões” e a ala bolsonarista mais propensa a cometer violências abraçaram a narrativa de que as duas (ótimas) profissionais seriam linhas auxiliares do ministro do STF Alexandre de Morais (indicado por Michel Temer) e do petismo. A história não para em pé, claro. Mas quem liga?

Sei do perigo das redes e não frequento grupos de WhatsApp. Mas levantei entre os pares da Abraji uma dúvida incômoda: o quanto nós, jornalistas, ajudamos a abrir essa Caixa de Pandora nos últimos anos?

Do começo do século 21 para cá, tenho visto um fogo amigo sem precedentes. A revista Veja, por exemplo, abrigou blogueiros que incitavam a perseguição a seus próprios colegas de profissão (aqui um exemplo). Os sites esquerdistas também elegeram seus alvos entre a própria classe (aqui outro exemplo).

Discordar de colegas é saudável. Mais do que isso: desejável. Incitar seus seguidores a desejar o silenciamento de companheiros de profissão é um terreno bem mais perigoso. Esse jogo só agrada aos aspirantes a ditadores.

No fim dessa história, políticos de esquerda e direita acumulam poder e só quem morre é o jornalismo. E depois do funeral dos fatos, o que sobram são narrativas. Cada um espalhando a que mais convém a seus interesses.

Aí, chego a um ponto muito preocupante do tenso ano de 2025: neste momento histórico em que finalmente veremos generais no banco dos réus, a imprensa definitivamente não está se ajudando ao ver focinho de tomada, pata curtinha e rabo enrolado e relutar em chamar de porco.

Gabriela e Thaísa são acusadas de levar à cadeia uma “mãe de família que pichou uma estátua com batom”. Ora, sabemos que a “pichadora do batom” foi presa por uma tentativa de golpe. Só que o próprio veículo onde elas trabalham vem resistindo a dizer isso com todas as letras.

Os fanáticos do WhatsApp que atacam repórteres e colunistas são meras marionetes. Sabemos que há método e interesses nisso tudo. Como disse a ombudsman da Folha, Alexandra Moraes (que não tem nenhum parentesco com o “Xandão”), as redes sociais apenas “gamificaram” um projeto nítido de matar o trabalho jornalístico profissional.

Só que a própria imprensa parece gostar da brincadeira de deixar à vontade os inimigos da verdadeira livre expressão (aquela comprometida com fatos e ética) quando hesita em tratar golpistas como golpistas. Até quando vão pisar em ovos? Vamos esperar o dia em que um golpe bem-sucedido volte a colocar censores nas redações?

A discussão é longa. Como classe, o jornalismo precisa estar atento e forte. E, se possível, cobrar dos seus próprios veículos, além de protocolos de segurança e advogados, uma cobertura que não dê margem a desinformação extremista.

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Rafael Simi é jornalista e autor do livro “De volta para o passado – O Brasil de 1985 e o que fizemos depois”.

 

 

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