Sensacionalismo em alta temperatura contribui para ansiedade climática e desinformação

(Foto: Andrea Piacquadio/Pexels)

Em tempos de mudanças climáticas, as notícias sobre o assunto têm se alastrado com sensacionalismo através de veículos de comunicação e redes sociais. Na primeira quinzena de fevereiro, uma matéria da CNN Brasil alertava a população para altas temperaturas, com projeção para sensação térmica de 70°C. A matéria de ampla repercussão se baseou em dados retirados de uma tabela, que seria fruto de pesquisa do Núcleo de Climatologia Aplicada da Universidade de São Paulo (USP). O Núcleo, porém, foi desativado em 2022. Havia muita desinformação, mas o apelo ao sensacionalismo falou mais alto e contribuiu para a ansiedade climática.

O prestígio da USP chancela qualquer dado. Faltou ao jornalismo checar a fonte primária da informação. A tabela utilizada como referência para projeção de sensação térmica foi citada em postagem de autoria de um doutorando da USP, em 2019, que erroneamente adaptou os dados originais  da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA), dos Estados Unidos. A tabela da postagem converte os graus de Fahrenheit para Celsius de forma incorreta e causou distorções como o valor máximo de 137°F (58°C), na tabela original, para 80°C (176°F), na versão traduzida.

Outros canais de mídia como a BBC, G1, UOL, Veja e Estadão também foram responsáveis pela divulgação da notícia, carregando o público com ansiedade climática. Como Julian Manley, professor da Universidade de Central Lancashire, no Reino Unido, relatou em sua visita como pesquisador na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) em 2024, a ansiedade climática é um sintoma resultante do medo e da sensação de impotência do indivíduo ao se deparar com o panorama de emergência ambiental. Manley investiga reações emocionais e psicológicas associadas à crise climática. A notícia foi além da fronteira brasileira e foi reproduzida na Argentina e México.

No dia 11 de fevereiro de 2025, o canal CNN indicou cautela para as ondas de calor previstas para os próximos dias nas regiões Sudeste, Centro-Oeste e Nordeste do país, noticiando que a sensação térmica atingiria 70 graus Celsius. No dia seguinte, inúmeros veículos reproduziram a notícia, resultando em picos de buscas no Google sobre o tema (veja gráfico do Google Trends abaixo).

No mesmo dia, circularam notícias questionando se chegar a 70 graus seria possível, mas as correções sobre a informações explicavam que uma análise “verdadeira” da sensação térmica, precisa combinar a temperatura com a umidade do ar simultaneamente, mas também não apontam para a conversão errada nas temperaturas em Celsius divulgadas.

Nova matéria da CNN trouxe, no dia 12 de fevereiro, entrevistas com especialistas que afirmaram ser pouco provável o quadro antes retratado. Contudo, manteve o título “Sensação térmica pode chegar a 70 C no Brasil? Entenda”, com tom sensacionalista. Os entrevistados ressaltaram os exageros no cálculo da sensação térmica com base na temperatura e na umidade máximas de um dia – já que ambas ocorrem em horários diferentes –, além do verdadeiro objetivo da tabela de estudo feita pela USP, usada para referenciar o nível de desconforto médio que as pessoas sentiriam. Portanto, o questionamento sobre a alta temperatura ficou em torno de uma má interpretação dos dados. Nenhuma das fontes acessou a tabela original, que indica sensação térmica máxima de 58°C.

O pesquisador ambiental Bruno Brezenski, no entanto, explicou, através de suas redes sociais, o equívoco da informação divulgada pela mídia, destacando o estado do Rio de Janeiro como exemplo: “o que teremos são 34ºC com umidade de 47%, o que dá uma sensação térmica de 39ºC. Em nenhum outro lugar da América do Sul teria condições para alcançar 70ºC de sensação térmica”. Brezenski trabalha com divulgação científica analisando dados e imagens de satélite em tempo real.

A agência de checagem de desinformação Fato ou Fake abordou o exagero na interpretação de informações, “usadas normalmente por meteorologistas”. Mas faltou, mais uma vez, a verificação dos dados primários produzidos pela agência estadunidense, jogando a responsabilidade no leitor pela má interpretação de dados científicos.

Ansiedade climática

O chamado terrorismo climático, expressado pela ministra do meio ambiente Marina Silva, ainda não é consensual entre especialistas. Porém, o termo é cada vez mais utilizado, assim como ansiedade climática, para se referir à falsa conscientização sobre as mudanças climáticas, os atos criminosos – como os incêndios florestais recentes – e suas consequências, resultando em medo e desmobilização da população e dos pesquisadores. “Essas informações são resultados de cálculos de índices e há muito erro nisso. Infelizmente cai no sensacionalismo e vira essas notícias totalmente sem seriedade”, afirma Ana Ávila, pesquisadora do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (CEPAGRI) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Em um cenário digital globalizado de acesso rápido ao que acontece no mundo, a imprensa midiática utiliza ferramentas controversas para obter mais visualizações e manipular seus leitores, o que pode ser visto em títulos como o da matéria citada, além do uso das redes sociais como forma de causar espanto e desinformação em massa. Exemplo da ansiedade que a notícia da CNN gerou pode ser vista dentre os 681 comentários e quase 40 mil curtidas que a postagem recebeu no Instagram.

Mídia precisa cobrir melhor eventos extremos

Diante dos fatos demonstrados, é essencial apontar que, em decorrência da mudança climática e das alterações consequentes ao meio ambiente, notícias como essa são cada vez mais comuns. O cenário global mostra uma aceleração nas extremidades de temperatura, posterior às emissões em alta concentração de gases poluentes na atmosfera. No entanto, é preciso atentar para os verdadeiros estudos e previsões diante do cenário atual. Um exemplo disso pode ser visto nas pesquisas que destacam que o período de resfriamento das águas do Oceano Pacífico, fenômeno climático chamado La Niña, está cada vez mais frequente, gerando maior aquecimento dos oceanos e agilidade no quadro de mudanças, que pode antecipar as secas no Norte do Brasil e causar eventos extremos nas outras regiões. Soma-se a este cenário a reeleição de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos, que, em sua retomada ao poder, retirou o país do Acordo de Paris, o tratado internacional que objetiva conter o avanço do aquecimento global, colocando-se favorável ao uso de combustíveis fósseis e às emissões abundantes de gases do efeito estufa.

As mudanças climáticas, portanto, ocuparão o noticiário com maior frequência, exigindo cuidado com as informações e preparo dos profissionais. O sensacionalismo nos conteúdos sobre o clima global é fruto por grandes veículos que utilizam dados advindos do prestígio de instituições de ensino, pesquisa e extensão; outrossim, as terminologias como crise climática e aquecimento global diferem do termo mudança climática, fator determinante para o desencadeamento de ansiedade, medo e desinformação. É indispensável que os profissionais da comunicação reflitam, acautelem-se e estejam treinados nessa cobertura. No Brasil, o site das Nações Unidas apresenta campanhas, definições, desafios e, também, soluções para o equilíbrio climático e ambiental, através de fontes de equipes de cientistas e pesquisadores, além de entidades, programas e instituições que trabalham para a divulgação correta da informação.

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Germana Barata e Laura Gonçalves atuam na Rede Ressoa Oceano, no Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), projeto da Década do Oceano da Unesco

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