Carne e grãos sul-americanos prejudicam as convergências europeias

(Foto: Michal Jarmoluk/Pixabay)

A maioria dos europeus está preocupada com a segurança ocidental, com o futuro da OTAN e, o que é mais preocupante, com a própria razão de ser do Ocidente. Outros, mas também os mesmos, estão se perguntando sobre o futuro de seu comércio exterior e de suas economias. Tanto é que as posições nessas duas frentes abertas pelo novo anfitrião da Casa Branca dividem os 27 europeus mais do que os unem. A América do Sul vai desempenhar papel nesse grande reajuste que está por vir e que ninguém havia previsto. Há mais de vinte anos, Bruxelas (sede das instituições europeias) e Montevidéu (Secretaria do Mercado Comum do Mercosul) vêm em um passa e repassa de negociações intermináveis. O fracasso em resolvê-las resultou na alternância de comunicados à imprensa e declarações saudando este ou aquele avanço ou lamentando este ou aquele bloqueio. Todos temperados com comentários que destacam o interesse comum em um acordo que reforce os interesses e valores da Europa e do Mercosul.

O clima educado dessas negociações, à espera de Alexandre para cortar os nós górdios, foi violentamente abalado pelos Estados Unidos, até então um espectador mal-humorado, e agora, com Donald Trump, pedra no sapato do comércio mundial. Empunhando um chicote alfandegário em todas as direções, uma coisa levando à outra, e como peças de dominó, o novo líder dos Estados Unidos questionou as relações comerciais de seu país com todos os seus parceiros. Em especial, ele tem como alvo aqueles que estão aumentando o déficit de Washington: Canadá, China, México e Europa. Na Europa, a Alemanha é o alvo mais direto. Em 2024, os Estados Unidos se tornaram o principal destino de exportação de Berlim, ultrapassando a China pela primeira vez.

Desde a anexação da Crimeia pela Rússia, a Alemanha enfrenta um desafio de segurança, mas também um desafio econômico. Até então, a Rússia era seu fornecedor de gás natural barato. O ex-chanceler alemão, Gerhard Schroeder, símbolo dessa união energética, ocupou cargos seniores nas empresas russas Gazprom e Rosneft até maio de 2022. Sob pressão dos Estados Unidos e da OTAN, a República Federal cortou gradualmente seus laços econômicos e energéticos com a Rússia, voltando-se para a China. Mas, por medo de ter que reduzir seus laços comerciais e industriais com Pequim como resultado da deterioração das relações sino-americanas, Berlim reorientou seus negócios e interesses para os Estados Unidos. Donald Trump apitou um final de jogo inesperado ao ameaçar impor sanções aos responsáveis pelos maiores déficits comerciais dos Estados Unidos, incluindo a Alemanha.

Resta a Berlim, a América Latina. O motor da economia alemã são suas exportações. Como a Europa não dispõe mais do lugar central que ocupava no Mercado comum, o supercombustível foi sucessivamente russo, depois chinês e depois americano. Mas todos esses mercados foram afetados devido às tensões globais. A economia e o comércio alemães tiveram de se adaptar, limitados pelos movimentos geoestratégicos da potência norte-americana.

A América Latina pode ser o próximo espaço onde a máquina industrial e comercial alemã poderá manter o impulso que havia acumulado. O novo chanceler, Friedrich Merz, um democrata-cristão, deixou isso claro assim que foi anunciada sua vitória legislativa em 23 de fevereiro de 2025: “Precisamos recuperar rapidamente nossa capacidade de ação”, afirmou. O último governo liderado por democratas-cristãos, o de Angela Merkel, fez, em 2019, um teste-drive na América Latina. Em 28 de maio de 2019, o Ministro Federal das Relações Exteriores organizou a primeira Conferência Alemanha-América Latina e Caribe em Berlim. Nas palavras do então ministro, Heiko Maas, o objetivo era “revitalizar e estimular nossas relações” com base em “nossos valores compartilhados”. Várias iniciativas culturais e políticas foram anunciadas. Mas também iniciativas econômicas, com a presença do Diretor do Conselho de Administração da Siemens, do Presidente da Iniciativa Econômica Alemã para a América Latina e do líder empresarial latino-americano.

A reunião foi recebida com uma simpatia distante pelos tomadores de decisão na época, já que a América Latina representa apenas 2,6% do comércio exterior alemão. Mas o marco não foi perdido. O presidente, o chanceler e os ministros alemães visitaram regularmente a Argentina, o Brasil, o Chile, a Colômbia, o México e o Panamá. Por via das dúvidas. Esse é, de fato, o cenário que se abriu com as sanções alfandegárias de Donald Trump desde 20 de janeiro de 2025. A confirmação de uma mudança de rumo no comércio por parte da Alemanha e, se possível, da União Europeia, agora priorizando a América Latina, tem o apoio da Presidente da Comissão, Ursula von der Leyen. Em 2019, na época da Conferência Alemanha-América Latina, ela era ministra de Angela Merkel. Em 6 de dezembro de 2024, ela viajou para Montevidéu para participar da cúpula dos países do Mercosul e comemorar com eles a conclusão das negociações do acordo UE-Mercosul. A Espanha está na mesma sintonia. A indústria alemã, assim como a de outros países europeus, precisa de novos mercados para compensar as incertezas da Rússia, da China e dos Estados Unidos. Mesmo que isso signifique sacrificar parte da agricultura europeia, o acordo de livre comércio entre a Europa e o Mercosul deve ser ratificado o mais rápido possível.

Já na cúpula europeia de 2 de fevereiro de 2024, o chanceler Olaf Scholz lamentou publicamente “a lentidão da adoção do acordo UE-Mercosul”. Em 17 de fevereiro de 2025, Kaja Kallas, a Alta Representante da União Europeia para Política Externa, lembrou ao Parlamento Europeu que estava celebrando seu quinto seminário de alto nível analisando as relações entre a União Europeia e a América Latina e a urgência de uma aproximação. A próxima cúpula entre a UE e a CELAC (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos) estava programada para acontecer na Colômbia. No dia seguinte, 18 de fevereiro de 2025, em Madri, o Ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, também destacou que “o acordo do Mercosul com a União Europeia é um forte sinal de desenvolvimento, crescimento e paz, de grande valor em um momento de ameaçadoras guerras comerciais”.

Resta convencer a França e a Polônia, que estão travando a aprovação para adiar a ratificação do acordo com o Mercosul, enquanto pressionam a Alemanha, a Espanha e a União, que o evitam, a participar de uma operação militar de solidariedade na Ucrânia, que passa por grandes dificuldades desde o abandono e a chantagem de Donald Trump sobre seus recursos.

Notas

 Texto publicado originalmente em frânces, em 24 de fevereiro de 2025, no site Nouveaux Espaces Latinos, Paris/França, com o título original: “Europe et Ukraine : Viande et céréales sud-américaines grippent les convergences européennes”. Disponível em: https://www.espaces-latinos.org/archives/125422. Tradução de Paul Fernand da Cunha Leite e Luzmara Curcino.

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Jean Jacques Kourliandsky é Diretor do “Observatório da América Latina” junto à Fundação Jean Jaurès, na França, especialista em análise conjuntural geopolítica da América Latina e Caribe. É autor, entre outros, do livro “Amérique Latine: Insubordinations émergentes” (2014). Colabora frequentemente com o “Observatório da Imprensa”, no Brasil, em parceria com o Laboratório de Estudos do Discurso (LABOR) e com o Laboratório de Estudos da Leitura (LIRE), ambos da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).

 

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