Para não dizer que não falamos de mulheres jornalistas…

(Imagem: Alexandr Ivanov/Pixabay)

Março, mês do dia Internacional da Mulher, está chegando ao fim e para não quebrar o movimento iniciado pela pesquisadora do ObjETHOS, Natália Huf, que em 2024 publicou Desigualdade, violência e precarização: não é fácil ser uma mulher jornalista vamos propor um exercício reflexivo e de combate à invisibilização e à desmemória dos desafios histórica e culturalmente impostos às mulheres, em especial, àquelas que se dedicam ao jornalismo.

O Perfil do Jornalista Brasileiro 2021 (Lima et al., 2022) revelou que as mulheres representam 57,8% do total de profissionais em atividade no país. O que nos coloca, mais uma vez diante de um descompasso flagrante ao contrapor as dinâmicas de feminilização (quando há aumento quantitativo da participação feminina em uma profissão) e feminização (transformações qualitativas a partir do ingresso massivo de mulheres em uma determinada ocupação) (Yannoulas, 2011), tendo em vista que para autoras como Hirata (2001), a chegada das mulheres ao mercado de trabalho figura como o primeiro expoente de precarização.

Somos mais escolarizadas do que os homens jornalistas (Campos, 2022), mas isso ainda não se reflete em melhores condições de trabalho para nós. Ao contrário disso, dia após dia enfrentamos diferenças salariais, abusos na jornada de trabalho, dificuldades para avançar na carreira, maior suscetibilidade às lógicas de violência, entre outros tantos entraves.

No último dia 18, a Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) divulgou que apenas 21% das redações no Brasil são lideradas por mulheres. O dado foi extraído de uma análise do Reuters Institute, que investigou a distribuição de gênero entre os principais editores em 240 grandes veículos de notícias em 12 países. No caso brasileiro, ainda houve redução de um ponto percentual em relação ao que o mesmo instituto havia constatado em 2024. Essa condição coloca o país no mesmo patamar de nações como a África do Sul e a Coreia do Sul, que vêm registrando queda na representatividade feminina dentro das redações.

Mesmo sendo a maioria na profissão e mais escolarizadas, acessamos menos as posições de comando nas empresas e enfrentamos desigualdades salariais. “No Brasil, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres recebem, em média, 20,4% a menos do que os homens, sendo que, entre as mulheres negras a diferença é ainda maior, 39,2%” (Brasil, 2024, p. 4). Nesse contexto, entrou em vigor no país a lei federal 14.611/2023, que busca conscientizar a sociedade para a necessidade da igualdade salarial e de critérios remuneratórios entre homens e mulheres. Uma das inovações decorrentes desta legislação é que ela obriga as empresas de direito privado com 100 ou mais empregados a apresentar, duas vezes ao ano, o Relatório de Transparência Salarial e de Critérios Remuneratórios.

Mesmo enfrentando revezes judiciais pela resistência da classe empresarial quanto ao cumprimento da lei, o Painel do Relatório de Transparência Salarial Rais 2023 e Respostas do 2º Semestre de 2024 foi divulgado pelo Governo Federal após o fechamento dos dados do ano passado. O documento dinâmico e acessível revela que no ramo de atividades de prestação de serviços de informação, em que se enquadra a atividade jornalística, entre os cerca de 69 mil vínculos profissionais ativos (nem todos são de jornalistas, certamente), 44% são referentes à contratação de mulheres que, em média, recebem 27,9% a menos do que os homens empregados no mesmo setor.

Nós poderíamos seguir explorando vários outros conjuntos de dados envolvendo a atividade jornalística que, possivelmente, na maior parte deles (talvez na totalidade), as mulheres ocupariam as posições menos privilegiadas no mercado de trabalho. Fatores que não podem ser pensados de forma dissociada do preconceito contra as profissionais que são mães e estão casadas ou em união estável expresso nas práticas das empresas; da imposição histórica de sermos colocadas como as principais responsáveis pelas atividades domésticas e cuidados familiares; do fato de termos sempre que estar buscando estratégias de sobrevivência para reafirmar nossa capacidade para exercer funções para as quais somos tão qualificadas quanto os homens.

Em 2021, a pesquisadora Andressa Kikuti Dancosky questionou em uma publicação aqui neste mesmo espaço Qual o efeito da presença de mulheres no Jornalismo?, uma provocação necessária e muito pertinente, tendo em vista que as pesquisas já vêm apontando que a condição de precariedade no trabalho, entre outros fatores associados à divisão sexual e racial do trabalho, têm contribuído para expulsar cada vez mais as mulheres do jornalismo e indiciando um possível movimento de desfeminilização (ou remasculinização) no âmbito jornalístico (Kikuti; Mick; Rocha, 2022).

Esse debate é urgente e em 2025 coincide com o marco de 30 anos da Declaração e Plataforma de Ação de Pequim. Aprovada por 189 nações na 4ª Conferência Mundial sobre a Mulher, a plataforma prioriza 12 áreas de ação, chamadas de “áreas críticas de preocupação”, sendo que uma delas é especificamente relacionada à mídia. O que se justifica tendo em vista a importância dos meios de comunicação para as dinâmicas em sociedade e para o acesso ao direito fundamental à informação, especialmente quando se trata de movimentar as estruturas de poder para que as meninas e mulheres sofram menos violências ao longo de suas vidas e encontrem condições mais justas e dignas de existência.

O jornalismo, neste sentido, precisa se esforçar para ser mais plural, inclusive contemplando as distintas identidades de gênero, mas também por meio de um esforço para a inclusão na mídia jornalística de pessoas não-brancas, tais como as que se autodeclaram negras e indígenas. Essa necessidade de lançar um olhar novo sobre a diversidade (Downie Jr.; Heyward, 2023) condiz também com a necessidade de romper com mitos profissionais e tornar a atividade mais precisa. Afinal de contas, precisamos nos perguntar: o quão violenta, prejudicial e imprecisa pode ser uma informação jornalística produzida de uma perspectiva eurocêntrica, masculina e branca?

Concordamos com a conclusão de Dancosky ao enfatizar que é necessário romper com esse estado de coisas, ampliando o acesso e a permanência de pessoas com as mais distintas manifestações identitárias no jornalismo, inclusive nos postos de comando, mas que isso não é suficiente. Também precisamos nos esforçar para que cada vez mais tenhamos jornalistas conscientes e preparados para exercer a atividade partindo de uma perspectiva feminista, antirracista, anticapacitista e comprometida com o futuro sustentável da sociedade.

Referências

BRASIL. Cartilha Tira-Dúvidas: Lei da Igualdade Salarial e de critérios remuneratórios entre mulheres e homens. Brasília. Ministério das Mulheres, Ministério do Trabalho Emprego, 2024. Disponível em: https://www.gov.br/mulheres/pt-br/central-de-conteudos/publicacoes/Cartilha_IgualdadeSalarial.pdf. Acesso em 28 mar. 2025.

CAMPOS, E. T. de M. Estagiárias em jornalismo no Rio Grande do Sul: mundo do trabalho, interseccionalidade e neoliberalismo. Dissertação (Mestrado em Ciências da Comunicação) – Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação, Universidade do Vale do Rio dos Sinos. São Leopoldo, p. 174. 2022.

DANCOSKY, A. K. Qual o efeito da presença de mulheres no Jornalismo? Disponível em: https://objethos.wordpress.com/2021/08/09/qual-o-efeito-da-presenca-de-mulheres-no-jornalismo/. Acesso em 28 mar. 2025.

DANCOSKY, A. K., et al., Masculização e desfeminilização no jornalismo em crise no Brasil (2012-2017). Revista Estudos Feministas, Florianópolis, 30(2), 2022. DOI: 10.1590/1806-9584-2022v30n275032

DOWNIE JR., L.; HEYWARD, A. Beyond Objectivity: Producing Trustworthy News in Today’s Newsrooms. Published by the Walter Cronkite School of Journalism and Mass Communication Arizona State University: Stanton Foundation, 2023. Disponível em https://cronkitenewslab.com/wp-content/uploads/2023/01/Beyond-Objectivity-Report-2.pdf. Acesso em: 22 nov. 2024.

HIRATA, H. Globalização e divisão sexual do trabalho. Cadernos Pagu, Desafios da equidade, v.17_18, p. 139-156, 2001. Disponível em: https://ieg.ufsc.br/storage/articles/October2020//Pagu/2001(17-18)/Hirata.pdf. Acesso em 30 mar. 2025.

HUF, N. Desigualdade, violência e precarização: não é fácil ser uma mulher jornalista. Disponível em: <https://objethos.wordpress.com/2024/03/04/desigualdade-violencia-e-precarizacao-nao-e-facil-ser-uma-mulher-jornalista/&gt;. Acesso em: 29 mar. 2025.

LIMA, Samuel Pantoja (coord.), et al. Perfil do jornalista brasileiro 2021: características sociodemográficas, políticas, de saúde e do trabalho. Florianópolis: Quorum Comunicações, 2022. Disponível em: https://perfildojornalista.paginas.ufsc.br/files/2022/06/RelatorioPesquisaPerfilJornalistas2022x2.pdf Acesso em: 16 de ago. 2024.

YANNOULAS, S. C. (2012). Feminização ou Feminilização? Apontamentos em torno de uma categoria. Temporalis, 11(22), PP. 271–292, 2011. https://doi.org/10.22422/2238-1856.2011v11n22p271-292

texto publicado originalmente em objETHOS

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Aline Rios é jornalista, doutoranda no PPGJOR e pesquisadora no objETHOS

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