Michelle remete a ‘batom’ no 8/1 para atrair apoiadoras de Bolsonaro

VICTÓRIA CÓCOLO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

“Tentaram tirar o brilho dos nossos lábios.” Com esse e outros trocadilhos, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) convocou mulheres a comparecer, junto com seus batons, ao ato pela anistia aos réus do 8 de janeiro marcado para este domingo (6), em São Paulo.

O chamamento de Michelle foi publicado nas redes sociais na terça-feira (1º).

Em um vídeo, usando camisetas com a frase “Anistia já” (numa estética que imita a tinta de um batom), Michelle, a deputada federal Caroline de Toni (PL-SC), a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) e Elizete Malafaia -esposa do pastor Silas Malafaia -classificam como “injusta” a prisão dos investigados por tentativa de golpe de Estado, sobretudo da cabeleireira Débora Rodrigues Santos, a mulher que pichou com batom a estátua “A Justiça” em 2023 em caso que tem sido explorado pelo bolsonarismo.

Débora se tornou ré em agosto passado, acusada pela Procuradoria-Geral da República de crimes de associação criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado democrático de Direito, tentativa de golpe e dano qualificado por violência e grave ameaça contra o patrimônio da União.

Ela deixou a cadeia e passou para prisão domiciliar na última sexta-feira (28).

Especialistas ouvidos pela Folha consideram que a campanha pela anistia tem focado no público feminino.

A especialista em branding e semiótica Deniza Gurgel afirma que o batom é tradicionalmente associado a lutas femininas, majoritariamente no campo progressista, por ser um elemento que já esteve ligado a posturas consideradas imorais. No entanto a direita o ressignifica neste momento.

Não é incomum que movimentos políticos incorporem símbolos. Eles servem para a construção de uma identidade de grupo. Ao longo da história, diversos exemplos podem ser citados. Na última década, manifestantes de direita passaram a usar camisetas com as cores do Brasil -verde e amarelo- para protestar.

Para a pesquisadora, Débora é o maior símbolo da narrativa utilizada por apoiadores de Bolsonaro sobre o suposto abuso de poder do STF (Supremo Tribunal Federal), principalmente do ministro Alexandre de Moraes, no julgamento dos investigados pelo 8 de janeiro.

“O que é amplamente divulgado é que ela escreveu em uma estátua com um batom e pagou de forma dura por isso. Faz todo sentido que ela se torne o maior símbolo desse movimento”, afirma.

A campanha está totalmente focada nas mulheres, para Deniza. “Os atores sempre fazem questão de lembrar que as pessoas que estavam em Brasília naquele dia são mães, senhorinhas, esposas, professoras.”

Essa é uma estratégia para humanizar os atos golpistas, avalia a pesquisadora e analista política Júlia Almeida. Segundo ela, as mulheres são utilizadas como forma de tentar suavizar impactos dos ataques e colocar os envolvidos na esfera da proteção dos direitos humanos.

Júlia diz ainda que há vantagens em apostar na presença das mulheres na manifestação de São Paulo, depois da baixa adesão no ato no Rio de Janeiro, em março. “Eles buscam uma alternativa capaz de massificar as mobilizações, chamando a força da mulher brasileira, guerreira, batalhadora.”

“Essa tem sido uma estratégia importante na extrema direita, agora, apostam que elas serão capazes de liderar esse processo pedindo a liberdade de seus filhos, maridos, irmãos e, de quebra, ainda podem ampliar o diálogo com esse grupo– algo que representa uma barreira eleitoral para o bolsonarismo”, diz a especialista.

Nesta semana, em ato com nomes da esquerda para lembrar os 61 anos do golpe militar, houve ironia com o novo símbolo dos bolsonaristas.

Em evento na PUC-SP na segunda-feira (31), o advogado Marco Aurélio de Carvalho, coordenador do grupo Prerrogativas, que reúne advogados alinhados ao governo Lula, falou sobre casos de mulheres presas que são impedidas de conviver com a família.

“O que faltou para cada uma das moças que seguem sem ver seus filhos, privadas de condições mínimas de dignidade no sistema penitenciário medieval que é o do nosso país? Talvez tenha faltado um batom.”

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