VITOR HUGO BATISTA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Seguindo a tendência de queda dos últimos dias, o dólar caiu pela oitava sessão seguida, enquanto a Bolsa engatou a sétima alta consecutiva nesta terça-feira (29), com investidores na expectativa por um novo alívio tarifário dos Estados Unidos e diante de dados fracos da maior economia do mundo.
Nas primeiras negociações do dia, o dólar apresentava leve alta ante o real, recuperando algumas das perdas da véspera, mas passou a cair após a divulgação de uma queda na confiança do consumidor americano e um recuo nas vagas de trabalho dos EUA.
Na mínima do dia, por volta de 12h20, a divisa americana registrou queda de 0,47%, cotado a R$ 5,620, menor patamar desde outubro do ano passado, mas encerrou com um recuo de 0,29%, a R$ 6,630.
Já a Bolsa fechou positiva, com variação de 0,05%, aos 135.092 pontos, chegando a tocar 136.149 pontos na máxima do dia, novo pico do ano. Na segunda (28), o dólar fechou em queda de 0,72%, cotado a R$ 5,647, e a Bolsa subiu 0,20%, a 135.015 pontos.
O noticiário sobre tarifas comerciais seguiu no radar. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou nesta terça-feira um decreto para amenizar o impacto de tarifas automotivas, segundo informou a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, em uma coletiva de imprensa.
O recuo ocorreu depois que a Ford, a General Motors e outras empresas reclamaram que as sobretaxas prejudicariam o setor ao aumentar o custo de produção e reduzir seus lucros.
Com a alteração, montadoras que pagam uma tarifa de 25% sobre importações de automóveis não estarão sujeitas a outras tarifas, como aquelas sobre aço e alumínio, disseram autoridades do governo americano nesta terça.
O secretário do Tesouro, Scott Bessent, disse nesta terça que a incerteza tarifária é uma “estratégia nas negociações” de Trump, e afirmou que não prevê choques nas cadeia de oferta causados pelas tarifas de Trump.
“Eu não acho que teremos um choque nas cadeias de oferta. E acho que os varejistas gerenciaram seus estoques antes disso”, disse durante uma coletiva sobre a agenda econômica do governo Trump nos primeiros 100 dias.
Ainda segundo o secretário, a China pode perder 10 milhões de empregos rapidamente devido às tarifas e que Pequim perceberá com o tempo que as tarifas chinesas não são sustentáveis.
Os movimentos da divisa brasileira ocorriam em meio a um cenário misto para a moeda norte-americana no exterior, com avanços modestos sobre pares fortes, como o euro e a libra, mas alguns recuos ante outros, como o iene.
“O dólar segue em movimento de enfraquecimento frente à maioria das moedas globais, após uma forte valorização recente, buscando uma zona de estabilidade que, na minha opinião, deve ficar entre R$ 5,60 e R$ 5,80 nas próximas semanas”, disse Anderson Silva, head da mesa de renda variável e sócio da GT Capital.
Por outro lado, ainda havia um certo sentimento de cautela nos mercados, controlando os movimentos cambiais, já que os agentes financeiros aguardam a publicação de uma série de dados importantes ao longo da semana que podem influenciar as negociações.
Nesta terça, foram divulgados dados sobre a confiança do consumidor americano em abril e sobre vagas de emprego nos EUA em março.
Segundo o Conference Board, a confiança do consumidor dos Estados Unidos caiu para o nível mais baixo em quase cinco anos. Entre as razões, está a crescente preocupação com as tarifas, que pesam sobre as perspectivas econômicas.
O índice caiu 7,9 pontos, para 86,0, leitura mais baixa desde maio de 2020. Economistas previam um recuo para 87,5. É o quinto mês consecutivo de queda do índice.
Já as vagas de emprego em aberto nos Estados Unidos caíram de forma acentuada em março, o que indica diminuição da demanda de mão de obra, segundo o Departamento do Trabalho no relatório Jolts.
Por outro lado, houve um declínio nas demissões, o que sugere que o mercado de trabalho permaneceu em uma base sólida.
Economistas esperam que as tarifas aumentem os preços e atrapalhem as cadeias de suprimentos, com um impacto no mercado de trabalho previsto para os próximos meses.
Segundo Cristiane Quartaroli, economista chefe do Ouribank, os dados “fracos” dos Estados Unidos acaba impactando a expectativa do mercado sobre a decisão de juros nos EUA. “Existe uma parcela do mercado
Na próxima sexta-feira (2), será divulgado o relatório mensal de emprego dos EUA, com expectativa de desaceleração na abertura de postos de trabalho. Também estarão no radar números de inflação e de PIB (Produto Interno Bruto), ambos na quarta-feira.
Investidores e analistas buscarão por indícios de efeitos iniciais da política tarifária de Trump sobre a economia norte-americana.
Também permanece incerteza sobre a guerra comercial entre EUA e China, à medida que os dois países seguem fornecendo visões diferentes sobre a situação das tensões comerciais entre ambos.
Na cena doméstica, o mercado avalia mais comentários do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, durante coletiva sobre o Relatório de Estabilidade Financeira.
O presidente do BC disse que não tem nenhum tipo de desconforto com a meta de 3% para a inflação, ponderando que o Brasil diverge de outros países ao seguir com dinamismo econômico mesmo convivendo com juros elevados.
No relatório divulgado mais cedo, a autarquia afirmou que as instituições financeiras indicaram mais cautela no apetite ao risco em 2025, em um ambiente em que riscos fiscais ganharam mais relevância e de percepção de piora no ciclo econômico e financeiro.
Na véspera, durante evento promovido pelo Banco Safra, Galípolo disse que o BC precisa reunir confiança de que a inflação está convergindo para a meta e que a política monetária está produzindo os efeitos desejados, ressaltando que não há uma variável única que vá dar essa segurança e é preciso reunir uma diversidade de dados.
No mesmo evento, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse que a economia brasileira é grande demais para ser satélite de qualquer outro país e que a guerra comercial “é uma oportunidade para o Brasil fazer valer sua diplomacia comercial e obter vantagens bilaterais”.