Alta no preço dos ovos pesa no bolso durante a Quaresma

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Por Camila Coimbra

Com a chegada da Quaresma, período em que muitos brasileiros substituem a carne vermelha por opções como peixes, frango e ovos, o consumo do produto aumentou significativamente. Mas, junto com a maior procura, veio também o susto no bolso: os preços dos ovos dispararam nas últimas semanas e têm causado queixas entre os consumidores do Distrito Federal.

Segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), a alta é sazonal e acontece todos os anos, justamente por conta da maior demanda no período. “Há uma forte substituição do consumo de carne vermelha por carnes brancas e ovos”, explica a entidade. No entanto, em 2025, outros fatores intensificaram ainda mais o aumento de preços.

Um dos principais motivos é o aumento no valor do milho, que serve de base para a ração das aves. O insumo acumula uma alta de mais de 30% desde julho do ano passado. Além disso, o calor extremo que atinge várias regiões do país também afetou a produção. Granjeiros relataram queda de até 10% na produtividade, devido ao estresse térmico nas aves.

Apesar das queixas, a ABPA ressalta que as exportações não são responsáveis pela escassez no mercado interno. A projeção é de que o Brasil produza 3,6 milhões de toneladas de ovos neste ano, e apenas 35 mil toneladas devem ser exportadas, menos de 1% da produção total.

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Foto: Camila Coimbra

Pablo Marcelo Carvalho de Melo, 31 anos, é um dos sócios de uma loja na Feira do Guará.especializado em produtos naturais, como biscoitos, temperos, castanhas e também ovos – tanto brancos quanto caipiras. Segundo Pablo, a procura pelos ovos aumentou bastante nas últimas semanas, impulsionada pelo período da Quaresma. “A demanda tem crescido em torno de 20% a 30%. Muita gente tem procurado mais ovos nesse período, principalmente por conta da substituição da carne”, explicou.

No entanto, junto com o aumento da procura, veio também a insatisfação dos consumidores com os preços. “O pessoal tem questionado muito os aumentos. Toda semana o valor sobe, porque os fornecedores aumentam e, consequentemente, a gente precisa repassar para não ter prejuízo.”

Sobre os motivos repassados pelos fornecedores para justificar os reajustes, Pablo relata que as explicações são variadas. “Eles falam que é por causa do custo da criação, da ração das galinhas, da matéria-prima… alguns até mencionam questões econômicas, como inflação e decisões do governo. Tudo isso, segundo eles, interfere no preço final.”

Além de Pablo, produtores rurais como Helena Yoko, de 62 anos, percebe essa mudança. Helena é feirante há 43 anos e hoje também atua como produtora rural, ela vende exclusivamente ovos caipiras produzidos por suas próprias galinhas. A decisão de deixar de vender ovos de granja e assumir a produção foi tomada após repetidas frustrações com a qualidade dos produtos importados de outras regiões. “Quando comecei na feira, vendia ovos de granja, que vinham em caixotes com 360 unidades. Mas a viagem longa destemperava os ovos, balançava muito. Quando chegava aqui, tinha muito ovo mexido, estragado”, conta.

Para garantir mais qualidade e segurança ao consumidor, Helena decidiu cuidar de toda a cadeia produtiva, criando as próprias aves. Hoje, ela mantém cerca de 300 galinhas caipiras, que alimenta com ração natural e acompanha de perto o processo de postura. “Prefiro saber de onde vem o que eu vendo. Assim, eu garanto um produto limpo, sadio e fresquinho.”

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Foto: Camila Coimbra

Durante a Quaresma, período em que muitos consumidores evitam o consumo de carne vermelha, a procura pelos ovos aumenta significativamente. “O pessoal vem muito atrás de ovo nessa época, porque é proteína boa, saudável, e ainda mais quando sabe que é de criação própria”, diz. Helena acredita que a demanda neste ano pode crescer até 30%, impulsionada pelo movimento religioso e pela confiança dos clientes. “Graças a Deus, tenho muita cliente fiel. E quem compra uma vez, volta.”

Na banca, ela oferece os ovos em diferentes quantidades — em dúzias ou cartelas com 30 unidades — para atender todos os perfis de consumidores. “Tudo vem da mesma criação. Faço questão de entregar limpo, direitinho, do jeito que eu gosto de consumir também.”

Segundo Bruna Rocha, extensionista da Emater-DF e especialista em produção de ovos na região de São Sebastião, o mercado de ovos tem passado por transformações importantes nos últimos meses. “A produção vinha estável, com preços relativamente controlados, mas em fevereiro houve um aumento surreal no valor do ovo branco, aquele de granja, o que mudou completamente o cenário”, afirma.

De acordo com ela, enquanto o ovo branco é produzido em larga escala por sistemas superintensivos, com galinhas confinadas em galpões e gaiolas, o modelo apoiado pela Emater segue outra lógica. “Trabalhamos com o sistema caipira, semi-intensivo, no qual as aves são criadas soltas, com acesso à área verde. É um processo mais natural, o que agrega valor ao produto final”, explica.

Essa diferença no manejo influencia diretamente o preço. O ovo caipira, por ser produzido em menor escala e com maior custo de manutenção, tradicionalmente tem preço mais elevado. No entanto, com a recente valorização do ovo branco, a diferença entre os dois tipos diminuiu, tornando o caipira uma opção mais atraente para muitos consumidores.

“O ovo branco disparou — teve lugar vendendo cartela a mais de R$ 30. Isso influenciou também o valor do caipira, mas ele ainda permanece mais estável, o que tem ajudado nossos produtores”, pontua Bruna. Ela destaca que a Quaresma também impacta no consumo. “Com a restrição ao consumo de carne nesse período, muita gente procura o ovo como fonte de proteína, e o caipira é cada vez mais valorizado pela qualidade e procedência”, explica Bruna.

Saiba Mais

Com base nos dados mais recentes da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), o panorama da produção e comercialização de ovos no Brasil revela um cenário fortemente voltado para o mercado interno. Em 2024, 99,14% dos ovos produzidos no país permaneceram no consumo doméstico, enquanto apenas 0,86% foram destinados à exportação, o que confirma a baixa participação do Brasil no mercado internacional de ovos.

Apesar disso, o setor demonstra um crescimento significativo ao longo das últimas décadas: entre os anos 2000 e 2024, a produção brasileira de ovos aumentou 189%, passando de 28,3 bilhões de unidades em 2009 para volumes muito superiores atualmente. Esse aumento acompanha a elevação do consumo interno, reforçando a importância do mercado nacional como principal destino da proteína.

O relatório também destaca que o consumidor brasileiro é o maior cliente da produção nacional de proteínas de origem animal, o que evidencia o peso da demanda interna nas estratégias do setor. Ainda que existam exportações pontuais — como as 37 mil toneladas registradas em 2009 —, a produção brasileira de ovos continua firmemente voltada para abastecer o mercado interno, principalmente em períodos de sazonalidade como a Quaresma, quando há aumento expressivo no consumo.

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