Parceiros comerciais dos EUA pedem diálogo após ofensiva protecionista de Trump

Os parceiros comerciais dos Estados Unidos pediram diálogo, nesta quinta-feira (3), após a série de tarifas alfandegárias do presidente americano, Donald Trump, que provocou quedas nas bolsas de todo o mundo.

O magnata as apresentou como uma “declaração de independência econômica” para promover uma “era de ouro” nos Estados Unidos, mas os mercados financeiros sentiram o golpe: Wall Street caiu na abertura (-2,81% para o índice Dow Jones, -4,60% para o Nasdaq e -3,39% para o S&P 500), derrubando a Europa com -2,31% em Frankfurt e -3,18% em Paris.

Em meio a temores de uma possível desaceleração econômica, os preços do petróleo caíram de 5% a 7%, e o ouro, considerado um ativo seguro, atingiu máximos históricos.

Até agora, nenhum país colocou mais lenha na fogueira: Pequim optou por “manter a comunicação” com Washington, mas pediu que anulasse “imediatamente” seus impostos e anunciou “contramedidas”.

O Japão argumentou que os Estados Unidos podem ter violado as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) e seu acordo bilateral, e a Austrália denunciou medidas que “não são atos de um amigo”.

A França falou em “catástrofe” e a Espanha denunciou um “protecionismo do século XIX”.

O comissário europeu do Comércio, Maros Sefcovic, falará com seus colegas americanos na sexta-feira.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse que não é “tarde demais” para negociar.

-“Mais forte”-

Mas Trump está convencido de que fez a coisa certa para seu país e acredita que sairá “mais forte”. Isso apesar de os últimos números do déficit comercial revelarem uma lacuna enorme.

Manteve, portanto, o tom da quarta-feira: “Durante décadas, nosso país foi saqueado, violado e devastado por nações próximas e distantes, aliadas e inimigas, por igual”, disse no jardim da Casa Branca.

A ofensiva protecionista consiste em uma tarifa aduaneira mínima de 10% para todas as importações, e sobretaxas seletivas para alguns países.

A conta sai cara para a China – cujos produtos serão taxados em 34%, que se somarão aos 20% impostos àquele país em fevereiro – e para a União Europeia, que terá um adicional de 20%. As taxas serão de 24% para o Japão, 26% para a Índia, 31% para a Suíça e 46% para o Vietnã.

Diversas economias latino-americanas estão na lista da Casa Branca: Brasil, Colômbia, Argentina, Chile, Peru, Costa Rica, República Dominicana, Equador, Guatemala, Honduras e El Salvador. No entanto, a tarifa aplicada a esses países será a mínima, de 10%. A exceção é a Nicarágua, que será taxada em 18%.

O Reino Unido, que está negociando um acordo comercial bilateral, saiu relativamente ileso, afetado apenas pela tarifa universal de 10%. Ainda assim, o primeiro-ministro Keir Starmer admitiu que a medida terá “um impacto” na economia britânica.

A tarifa universal de 10% entrará em vigor às 4h01 GMT (1h01 de Brasília) do próximo dia 5, e as mais elevadas em 9 de abril.

Analistas da Oxford Economics não descartam uma desaceleração econômica mundial.

“As tarifas de Trump são as mais caras e masoquistas que os Estados Unidos aplicaram em décadas”, criticou Larry Summers, ex-secretário do Tesouro, na rede social X.

Segundo ele, os impostos podem levar a perdas de até 30 bilhões de dólares (170 milhões de reais).

– E os vizinhos? –

Os encargos são calculados para refletir também as chamadas barreiras não tarifárias que os países impõem à entrada de produtos americanos, como, por exemplo, as regulamentações sanitárias e os padrões ambientais.

Alguns produtos, como cobre, produtos farmacêuticos, semicondutores, madeira, ouro, energia e “certos minerais” não estão sujeitos às tarifas anunciadas na quarta-feira, segundo uma nota da Casa Branca.

Cuba, Belarus, Coreia do Norte e Rússia também não estão na lista porque estão sujeitos a sanções que restringem as relações comerciais.

Nem México, nem Canadá, os parceiros dos Estados Unidos no tratado de livre comércio da América do Norte (T-MEC), estão na lista.

A Casa Branca anunciou que seus vizinhos “continuam sujeitos” aos impostos exigidos por Washington para incentivá-los a combater a imigração ilegal e o tráfico de fentanil.

Isso implica tarifas de 25% (10% para hidrocarbonetos canadenses), exceto para produtos contemplados pelo T-MEC.

Um relativo alívio para o México. “Isso é bom para o país”, disse a presidente Claudia Sheinbaum.

Mas nenhum deles está imune às tarifas sobre carros importados que entraram em vigor nesta quinta-feira: +25%.

De certa forma, o México mais uma vez será beneficiado, assim como o Canadá, países onde as tarifas serão aplicadas apenas a peças individuais não originárias dos Estados Unidos.

Há outras tarifas em vigor que ninguém pode ignorar: sobre o aço e o alumínio.

© Agence France-Presse

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