Senador bateu recorde: quais os discursos mais longos do Congresso dos EUA

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SÃO PAULO, SP (UOL/FOLHAPRESS)

O senador democrata Cory Booker bateu um recorde ontem, após discursar por 25 horas e cinco minutos contra as políticas adotadas pelo presidente Donald Trump.

É PERMITIDO FALAR TANTO ASSIM NO CONGRESSO?

Sim. Falas longas como a do parlamentar de Nova Jersey têm um nome histórico no Senado dos EUA.

Elas são chamadas de “filibuster”, que significa “obstrução”, já que há mais de um século são utilizadas estrategicamente para impedir ou postergar uma votação enquanto partidos articulam apoio necessário para medidas de seu interesse. Em alguns casos, elas são feitas em maratonas, por mais de um parlamentar.

No caso de Booker, o seu discurso não tinha este propósito, de acordo com a pauta do dia. Ele prometeu aos presentes que falaria por tanto tempo quanto fosse fisicamente capaz, como forma de “protesto simbólico” contra a agenda presidencial e o que considerou um momento “grave e urgente” na história americana, a beira de “uma crise constitucional”.

Para se caracterizar como “filibuster”, um discurso não tem pausas. O parlamentar deve se manter de pé o tempo todo e não interromper o argumento para ir ao banheiro, apenas passando o bastão para o próximo a discursar, se for o caso. Segundo a AP e a BBC, este não foi o caso da fala de Booker, que respondeu a perguntas de outros democratas, feitas para lhe permitir um descanso momentâneo no discurso.

OS DISCURSOS RECORDISTAS DO CAPITÓLIO

O primeiro “filibuster” registrado no Senado teria acontecido em 22 de setembro de 1789. O então senador da Pensilvânia William Maclay descreveu em seu diário que “o plano dos virginianos era falar até acabar o tempo, para que a lei não fosse aprovada”. No entanto, os arquivos da casa não mencionam por quanto tempo os primeiros longos discursos deste tipo duraram, apenas que eles se tornaram comuns a partir de 1830.

Antes de Booker, o recorde de maior discurso individual era do senador Strom Thurmond, da Carolina do Sul. Ele falou por 24 horas e 18 minutos entre as 20h54 do dia 28 de agosto de 1957 e as 9h12 do dia 29, durante o debate sobre os direitos civis. O monólogo dele era mesmo um “filibuster”, porque Thurmond era segregacionista e tentava impedir a aprovação do Ato dos Direitos Civis, que daria o direito ao voto aos negros americanos.

Em 2013, o recorde de Thurmond quase foi quebrado. O senador republicano Ted Cruz falou por 21 horas e 19 minutos entre 24 e 25 de setembro daquele ano, contra o Affordable Care Act, mais popularmente conhecido como Obamacare. A lei aumentou o acesso da população dos EUA a planos de saúde e reformou o sistema nacional.

Já a Câmara tem regras que impõem limites aos discursos dos parlamentares. Eles podem falar por apenas um minuto, exceto o líder da casa ou os líderes de cada partido, que têm direito ao chamado “magic minute” ou “minuto mágico” -sem limites.

O recorde durante mais de um século era do democrata James Beauchamp Clark. O líder da minoria falou por cinco horas e 15 minutos contra reformas tributárias em 1909.

Em fevereiro de 2018, a líder democrata Nancy Pelosi quebrou este recorde. Ela falou por oito horas e sete minutos pedindo legislação que protegesse os “dreamers”, filhos de imigrantes ilegais que chegaram ainda crianças aos EUA, de deportação. O então líder republicano Paul Ryan disse que o feito dela foi “impressionante” porque Pelosi falou o tempo inteiro em pé usando salto alto, segundo o jornal USA Today.

O líder republicano Kevin McCarthy instaurou o recorde atual em novembro de 2021. Ele falou por oito horas e 32 minutos antes da votação do projeto de lei “Build Back Better”, projeto do presidente Joe Biden para reforma econômica. Durante o monólogo, McCarthy contou que se tornou republicano por causa da preferência do presidente Jimmy Carter por suéteres, reclamou que “baby carrots” (pacotes de cenourinhas em miniatura) são apenas cenouras grandes cortadas, disse que gostaria de ter derrubado o Muro de Berlim e que não podia testar um Tesla, mesmo sendo amigo de Musk.

O discurso foi tão aleatório que se tornou motivo de escárnio na Casa Branca e na mídia dos EUA. A então porta-voz presidencial Jen Psaki comentou, após o discurso, que apesar da extensão da fala de McCarthy, ele não conseguiu comentar a respeito dos custos de cuidados infantis ou das mudanças climáticas, inclusas no projeto, segundo o jornal Washington Post.

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