Pressionado por Trump, Panamá compra caças da Embraer

IGOR GIELOW
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS)

Pressionado pelos Estados Unidos a devolver o controle do canal que liga os oceanos Pacífico e Atlântico, o Panamá decidiu comprar aviões de combate da fabricante brasileira Embraer.

O anúncio da venda de quatro A-29 Super Tucano foi feito pela empresa paulista na feira militar LAAD, no Rio, nesta quarta (2). O valor do negócio, que ainda vai ser fechado em detalhes, não foi revelado.

O país não tem Forças Armadas desde 1990, e suas forças policiais operam apenas 17 pequenas aeronaves de transporte e vigilância, segundo dados do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (Londres).

“É uma plataforma comprovada, com muitas horas de combate em diversos países”, afirmou Márcio Monteiro, da Embraer Defesa.

A empresa não quis comentar qualquer correlação entre a aquisição e a pressão do presidente Donald Trump. A compra, diz, está sendo tocada pelo Serviço Aeronaval do Panamá, que supostamente a irá operar.

Não fico claro, contudo, se os EUA apoiaram o negócio como parte de uma militarização da região. De todo modo, uma venda dessas não ocorre sem anuência americana, dada a quantidade grande de partes americanas no avião —nos anos 2000, por exemplo, Washington vetou a venda do modelo para a hostil Venezuela.

Os americanos já compraram Super Tucano antes para aliados, equipando a então Força Aérea do Afeganistão após a queda do Talibã em 2001 com os aviões.

Com a saída dos EUA do país em 2021 e a volta ao poder dos fundamentalistas, parte da frota foi levada por pilotos para vizinhos, enquanto as aeronaves remanescentes ficaram inoperantes.

Desde as vésperas de sua posse em janeiro, Trump vem dizendo que pretende retomar o canal do Panamá, por onde passam 40% dos contêineres americanos.

Em sua visão, o fato de que uma empresa chinesa controlava portos na região implicava perda de soberania e riscos para a economia americana. Trump ameaçou até uma retomada militar, o que seria feita facilmente.

A pressão levou o Panamá a abandonar o acordo de infraestrutura global liderado por Pequim e, na sequência, uma empresa americana fechou um acordo para ficar com a concessão das operações chinesas por US$ 22, 8 bilhões. O tema ainda está sendo discutido.

Nos EUA, há um sentimento de que o Panamá é uma dependência de Washington. O país foi extirpado da Colômbia com ajuda militar americana em 1903 porque Bogotá não havia cedido controle da obra do canal que os franceses tentavam finalizar.

Em 1914, a obra foi entregue. Em 1977, o governo Jimmy Carter concordou em devolver o controle dela ao Panamá em 22 anos, o que ocorreu. Trump já chamou a iniciativa de desastrosa.

Ainda no campo geopolítico, o Super Tucano fez avanços importantes no ano passado, duas décadas depois em que entrou para dominar o mercado de aviões turboélice de treinamento, caça e ataque leve.

Portugal tornou-se o primeiro operador do modelo na Otan, a aliança militar do Ocidente. Lisboa encomendou 12 das 34 unidades vendidas pela Embraer no mundo todo em 2024. Ao todo, o Super Tucano está ou estará em 21 países, tendo 290 aeronaves vendidas ou encomendadas. A Embraer projeta um mercado potencial de até 540 aviões.

Como disse o executivo, é um avião testado. Sua frota tem 600 mil horas de voo até aqui, 10% disso em combate. Foi instrumental, por exemplo, no combate da Colômbia às narcoguerrilhas. Hoje, 61% do nicho de mercado do Super Tucano é do avião brasileiro.

Adicionar aos favoritos o Link permanente.