Nova capital entra no papel

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cab brasília 65 anos

“Fica pertencendo à União, no Planalto Central da República, uma zona de 14.400 quilômetros quadrados, que será oportunamente demarcada para nela estabelecer-se a futura capital federal. Efetuada a mudança da capital, o atual Distrito Federal passará a constituir um Estado”, trecho da Constituição de 1891 a qual estabeleceu o Planalto Central, pela primeira vez, como capital do Brasil.

Após surgir a ideia no período colonial, com Marquês de Pombal, ressurgir com a vinda da família real e ganhar força com José Bonifácio, Hipólito José da Costa e Francisco Adolfo de Varnhagen – como visto na reportagem de ontem – a nova capital no interior começa a criar raízes depois da Proclamação da República, em 1889. 

Com os republicanos, surge uma nova Constituição, a de 1891, e a primeira a estabelecer o Planalto Central como capital do Brasil. A mudança foi proposta pelos republicanos, dentre eles o político catarinense Lauro Muller, após lerem o livro de Varnhagen “A Questão da Capital: Marítima ou no Interior?” – citada ontem – a qual elenca critérios importantes para se defender a mudança da capital do Rio de Janeiro para o Planalto Central. 

O livro de Varnhagen foi um pontapé para que a nova capital entrasse no papel. Além do contexto de segurança, é na Proclamação da República, em 1889, que começa a se discutir mais a fundo as questões sanitárias do Rio, que era considerado um centro de aglomeração de doenças. Por conta disso, surge o anseio por um ambiente mais salubre, menos úmido e longe dos portos marítimos, por onde as enfermidades adentravam a cidade.

Desde a Proclamação da Independência, em 1822, quando o Império do Brasil rompeu laços com Portugal, já houve no território brasileiro sete constituições, sendo que seis delas foram rasgadas. Das sete, três estabeleceram a capital do país no interior, longe do litoral – já que uma capital perto do mar era considerada insegura e um centro de aglomeração de doenças. 

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Missão Cruls. – Foto: Arquivo Público do Distrito Federal

Além da Carta Magna de 1891, foi estabelecida uma capital no interior nas constituições de 1934 e 1946. A mudança não entrou na Lei Maior em 1824 – primeira e única do período Imperial – por conta de Dom Pedro I, que rejeitou a sugestão de Bonifácio, com base nas ideias do jornal Correio Braziliense de Hipólito da Costa. Na época, a Constituição foi outorgada, ou seja imposta pelo Imperador.

Comissão no Planalto Central 

Já com a capital no interior estabelecida na Lei Maior do país, o então presidente Floriano Peixoto, em 1892, respeitou o art. 3º da Constituição, a qual determinava a nova sede do poder do Brasil no Planalto Central. Para cumprir o que estipulava a Carta Magna de 1891, o então chefe do Executivo criou a Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil, mais conhecida como Comissão Cruls. 

“Vem para o Planalto Central 22 pessoas, era a nata da ciência brasileira”, ressaltou o historiador do Arquivo Público, Elias Manoel da Silva ao falar da Comissão Cruls. A comissão foi batizada assim por conta do seu líder, o engenheiro, astrônomo e geógrafo belga, Luiz Cruls. Quando foi escolhido para liderar a comissão, o desbravador – como é conhecido – era diretor do Observatório Astronômico do Rio de Janeiro. 

A comissão era composta por pesquisadores, geólogos, geógrafos, botânicos, naturalistas, engenheiros e médicos. Os profissionais foram responsáveis por realizar estudos científicos – até então inéditos no interior -, mapear aspectos climáticos e topográficos, além de estudar a fauna, flora, cursos de rios e modo de vida dos habitantes.

A missão principal da comissão era definir no Planalto Central um quadrilátero de 14.400 quilômetros quadrados. Foram sete meses de estudos, que resultaram no Relatório Cruls, publicado em 1894. “Pela primeira vez vai sair um relatório que fala que o Planalto Central é um paraíso, com águas e ares bons. O Planalto Central que foi sempre falado mal, acaba virando um paraíso através do relatório da Comissão Exploradora”, salientou Silva.

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Missão Cruls. – Foto: Arquivo Público do Distrito Federal

Foi um sucesso o relatório, até com repercussão nos veículos jornalísticos da época com a notícia que o Brasil preparava-se para transferir a capital do Rio para o interior, com uma área já demarcada. O contexto histórico do país, na época, não era o dos melhores, pois o então presidente Floriano Peixoto vivia em meio a Segunda Revolta da Armada, que ocorreu no Rio de Janeiro entre 1892 a 1894, e da Revolução Federalista, que acontecia no Sul entre 1893 e 1895. 

O Brasil, no período, estava no meio de uma guerra civil, onde a Marinha se revoltou contra Peixoto, na Segunda Revolta da Armada, e o Sul, com Santa Catarina e Paraná, estava quase se separando do resto do Brasil e tornando-se um país. Com o Relatório Cruls em mãos e em meio a guerras internas, o presidente “Marechal de Ferro”, como ficou conhecido Peixoto, envia ao Planalto Central a segunda Comissão Cruls, em 1894. 

A segunda Comissão vai com a missão, agora, de informar onde, dentro do quadrilátero de 14.400 quilômetros quadrados, deverá ser construída a nova capital. Nessa nova expedição, a equipe ficou um ano e seis meses. “Onde estão as piscinas da Água Mineral, eles [Comissão Cruls] fizeram acampamentos, tanto que um córrego foi batizado de córrego do Acampamento em homenagem a eles”, recordou Silva.

A Comissão Cruls sugeriu, na época, dois lugares para construir a capital, no Vale do Rio Descoberto e entre os córregos Torto e Gama (onde Brasília está atualmente). Já escolhido o território do Distrito Federal e o lugar da nova capital, a comissão volta ao Rio e entrega os novos estudos a Peixoto, porém o seu governo tinha chegado ao fim. 

Sempre foi Brasília?

Ao longo da história, foram debatidos cerca de oito nomes para a nova capital no Planalto Central. Além de Brasília, que foi sugerido pelo Patriarca da Independência, José Bonifácio, durante a Constituinte de 1824, ao menos outros seis nomes foram cogitados desde o período colonial. Brasília, inclusive, não foi o único nome sugerido por Bonifácio, que na mesma época propôs também que a capital se chamasse Petrópole. 

Bonifácio explicou, na época, que Petrópole seria em homenagem a Dom Pedro I e Brasília se refere ao nome do país, Brasil. Mas, acredita-se que o Patriarca da Independência não foi o primeiro a sugerir nomes para a nova capital. Há indícios que com a chegada da família real ao território brasileiro fugindo de Napoleão Bonaparte, no período colonial, – como visto na reportagem de ontem – tenha sido sugerido a construção de uma “Nova Lisboa”, com esse nome em específico. 

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Missão Cruls. – Foto: Arquivo Público do Distrito Federal

O deputado paulista Menezes Palmiro, em 1823, um ano antes de Bonifácio, também chegou a sugerir o nome Cidade Pedrália para uma futura capital. O diplomata e historiador brasileiro Francisco Adolfo de Varnhagen – apresentado ontem – também quis batizar a nova capital, com o nome de Imperatória, título que seria em homenagem ao Imperador Dom Pedro II. 

Na Assembleia Constituinte de 1891, o senador baiano Virgílio Damásio apresentou uma proposta para que a nova capital do Brasil se chamasse Cidade Tiradentes, em homenagem a Joaquim José da Silva Xavier que foi usado, de forma errônea, como um símbolo da Independência do Brasil e da mudança da capital para o interior. Na Era Vargas, se especulou o nome Cabrália, em homenagem a Pedro Álvares Cabral,  o “descobridor do Brasil”. Já o marechal José Pessoa, chefe da Comissão de Localização da Nova Capital, – que ainda será citado nas próximas reportagens – sugeriu que a capital chama-se Vera Cruz, em homenagem ao primeiro nome dado pelos portugueses ao Brasil. 

O dilema de Dom Bosco

Ao recordarmos a história de Brasília, sempre surge o famoso sonho de Dom Bosco. “Entre o grau 15 e 20, havia uma enseada bastante extensa, que partia de ponto onde se formava um lago. Disse então uma voz repetidamente: quando se vierem cavar as minas escondidas em meio a estes montes, aparecerá aqui a terra prometida, que jorra leite e mel. Será uma riqueza inconcebível”, trecho da visão do sacerdote católico italiano São João Bosco descrito no livro “Memórias Biográficas de Dom Bosco”.

A partir dessa visão, em 1950, defensores da construção de Brasília associaram o sonho de Dom Bosco à construção da nova capital. Para se basear na ideia, foi levado em consideração que a “visão profética” passou-se na América do Sul, em 1883, e o fato do religioso afirmar que “partia de ponto onde se formava um lago”, o que defendem como sendo o Lago Paranoá. 

Porém, diferente do que se afirma, o trecho relatado por Dom Bosco à qual associam com a criação de Brasília não é claro ao afirmar que de fato trata-se da capital. Em nenhum momento da visão, o sacerdote cita que seria onde teria uma capital ou nova civilização, ou a palavra Planalto Central.  

O historiador Fernando Tamanini se dedicou a entender como o sonho de Dom Bosco entrou na história de Brasília e em seu livro “Brasília: Memória da construção” ele conta que, em 1950, o jurista goiano Segismundo Mello teve a ideia de adaptar o sonho para defender a construção da nova capital no interior. 

Segundo o historiador, Mello procurou o padre salesiano Cleto Caliman e pediu que ele fizesse a tradução do sonho do italiano para o português. Feito a tradução, o jurista descobriu que a “visão” não tinha uma ligação concreta com Brasília, então o mesmo pede que o padre acrescentasse a palavra “civilização” no texto. 

Assim, o trecho do sonho para o português ficou assim, na época: “Entre o grau 15 e 20, havia uma enseada bastante extensa, que partia de ponto onde se formava um lago. Disse então uma voz repetidamente: quando se vierem cavar as minas escondidas em meio a estes montes, aparecerá aqui a grande civilização, a terra prometida, que jorra leite e mel. Será uma riqueza inconcebível”. 

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