‘Tudo o que você pensa sobre si mesmo muda’: Jornalista relata os impactos do diagnóstico de autismo na vida adulta

Autismo: jornalista fala sobre os desafios do diagnostico tardio
Jornalista e professora Cyneida Correia. (Foto: Nilzete Franco/FolhaBV)

A jornalista e professora Cyneida Correia construiu uma trajetória de destaque na comunicação e na educação. Com mais de 35 anos de experiência, foi pioneira em diversas frentes do jornalismo em Roraima e consolidou sua carreira em veículos nacionais e internacionais. No entanto, um diagnóstico tardio trouxe uma nova perspectiva sobre sua vida: Cyneida é autista.

A descoberta, feita na fase adulta, a levou a refletir e a compreender desafios que sempre fizeram parte do seu caminho. Em entrevista à Folha, ela compartilhou como o autismo influenciou sua vida profissional e pessoal, a importância do diagnóstico e a necessidade de maior conscientização sobre o transtorno.

Uma carreira marcada por conquistas

Nascida em Santarém, no Pará, em 1971, Cyneida iniciou sua carreira no jornalismo em 1998. Dois anos depois, mudou-se para Roraima, onde se tornou a primeira mulher a apresentar um programa policial no estado, o Roda Viva. A jornalista trabalhou por 21 anos na Folha de Boa Vista. Além disso, atuou como correspondente do Estado de S. Paulo e colaborou com veículos como Wall Street Journal, Folha de S. Paulo, Portal Terra e O Globo, cobrindo temas como a crise migratória venezuelana e a situação dos povos indígenas.

Paralelamente, construiu uma carreira acadêmica. É doutoranda em Educação pela rede Educanorte, mestre em Comunicação Social pela Universidade Federal de Roraima (UFRR) e especialista em Inteligência Artificial pela PUC Minas. Ainda, como pesquisadora, produziu materiais sobre a história da imprensa roraimense e publicou livros. Além disso, no setor público, ocupou cargos na Secretaria de Comunicação do Governo de Roraima e na Assembleia Legislativa.

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O diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA)

Cyneida conta que receber o diagnóstico de autismo na fase adulta trouxe reflexões profundas sobre sua identidade. “É como se você morresse. Tudo o que você pensa sobre si mesmo, tudo o que construiu, muda. Você precisa se redescobrir e entender que é outra pessoa”, afirmou.

Ao longo da vida, Cyneida enfrentou dificuldades de interação social e comunicação, características comuns do TEA. Para ela, a descoberta foi um divisor de águas. “Sempre senti que nunca me encaixei completamente. Depois do diagnóstico, comecei a entender por que”.

Apesar dos desafios, ela destaca que o autismo também trouxe habilidades valiosas. “Autistas têm mais neurônios, conseguem ver e entender coisas que os outros não percebem. Mas isso também vem com a sensação de não pertencimento”, disse.

Mesmo sendo comunicadora por profissão, a jornalista relata que precisou desenvolver estratégias para lidar com as dificuldades do espectro. “Dediquei minha vida ao jornalismo, mas sempre senti que me esforçava mais do que os outros para me adaptar. Compreender meu diagnóstico me ajudou a encontrar maneiras de tornar esse processo mais leve”, explicou.

Preconceito e falta de Informação sobre TEA

Para Cyneida, um dos maiores desafios ainda é o preconceito. “Muitos acham que ser autista significa ser doido, burro ou ter algum problema mental. Mas não é isso. Pelo contrário, segundo meu diagnóstico, sou quase 50% mais inteligente do que a média das pessoas da minha idade”, afirmou.

Ela acredita que a desinformação sobre o autismo ainda é um problema. “Sempre existiram autistas ao longo da história, mas as pessoas não sabiam o que era. Hoje, o diagnóstico está mais acessível, mas o preconceito ainda persiste”, pontuou.

Em Roraima, segundo ela, há um número expressivo de diagnósticos tardios. “Muita gente aqui descobre o autismo na idade adulta, mas poucos falam sobre isso. Não os culpo. Ser diferente é difícil, e muitas pessoas preferem não se expor”, relatou.

A jornalista defende a importância da aceitação e do autoconhecimento. “Ninguém quer ser diferente. Todo mundo quer pertencer. Mas quando entendemos que o autismo é parte de nós, conseguimos lidar melhor com essa sensação de não pertencimento”.

Resiliência

Diante dos desafios, Cyneida enfatiza a importância da resiliência. “Todos os dias enfrentamos dificuldades — na vida pessoal, profissional e social. Mas há um caminho. Se eu, como autista diagnosticada tardiamente, consegui superar barreiras e construir minha carreira, outras pessoas também podem”, afirmou.

Ela destaca que muitas mães entram em desespero ao receberem o diagnóstico de autismo dos filhos, temendo que eles não tenham um futuro. “Autistas podem trabalhar, estudar, ter família, ser inteligentes”.

Para ela, cada pessoa dentro do espectro tem sua própria forma de enxergar o mundo. “Meu autismo não é igual ao de outra pessoa. Cada um tem sua individualidade. Mas sempre conseguimos encontrar nosso caminho”.

A jornalista reforça que o diagnóstico pode transformar vidas. “Se eu puder deixar uma mensagem, diria: façam o diagnóstico. Ele salva vidas. E, acima de tudo, tenham resiliência. Vai dar certo”, finalizou

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