Mercado de trabalho mantém força com impulso do emprego formal

LEONARDO VIECELI
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS)

Apesar do aumento da taxa de juros, o mercado de trabalho ainda se mostra forte no Brasil, com destaque para o emprego formal, apontam analistas a partir de dados divulgados nesta sexta (28).

À tarde, o Ministério do Trabalho e Emprego informou que o país gerou quase 432 mil vagas com carteira assinada em fevereiro, um recorde na nova série do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), que começou em 2020. O saldo resultou da diferença de cerca de 2,6 milhões de admissões e 2,1 milhões de desligamentos.

Antes, durante a manhã, o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) disse que o número de empregados trabalhando com carteira assinada no setor privado chegou a 39,6 milhões no trimestre até fevereiro.

Assim, o contingente renovou a máxima da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua), iniciada em 2012. O recorde anterior (39,3 milhões) havia sido registrado nos três meses finalizados em janeiro.

A taxa de desemprego até aumentou, ao marcar 6,8% até fevereiro, após atingir a mínima de 6,1% até novembro. O avanço da desocupação na pesquisa do IBGE, contudo, era esperado por questões sazonais e teve relação com o fechamento de vagas informais.

“O mercado de trabalho segue forte. Não está dando sinalização de uma desaceleração relevante da economia até o momento”, afirma Sergio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados.

Ele diz que o avanço do emprego formal pode refletir ainda o crescimento da economia nos últimos anos, além de fatores como mudanças trazidas pela reforma trabalhista.

A força dos indicadores é vista como um estímulo para o consumo no PIB (Produto Interno Bruto). O efeito colateral dessa sequência em alta é a pressão sobre a inflação.

Para tentar conter a demanda que impacta os preços de bens e serviços, o BC (Banco Central) vem subindo a taxa básica de juros, a Selic, que alcançou 14,25% ao ano na semana passada.

O mercado financeiro espera Selic de 15% ao final de 2025, mas um patamar superior a esse não pode ser descartado, de acordo com Vale. “O Banco Central vai ter trabalho para conter a inflação deste ano e as expectativas de 2026”, afirma o economista.

O IBGE sinalizou que a taxa de informalidade recuou a 38,1% no trimestre até fevereiro, após marcar 38,7% nos três meses encerrados em novembro. Esse indicador mede a proporção de informais em relação à população ocupada com trabalho.

Taxas de informalidade menores do que a mais recente só foram verificadas durante a pandemia, que havia retirado do mercado brasileiros sem carteira ou CNPJ em um primeiro momento.

O novo resultado, segundo o IBGE, indica que mais profissionais podem estar buscando postos formais.

“Esse retrospecto é bem consistente, um indicativo de um processo maior de formalização”, disse Adriana Beringuy, coordenadora de pesquisas domiciliares do instituto.

Outro destaque da Pnad foi o novo recorde da renda do trabalho da população ocupada. O rendimento médio foi estimado em R$ 3.378. A máxima anterior havia sido verificada até janeiro de 2025 (R$ 3.365).

Segundo o IBGE, a saída de informais do mercado levou a renda para cima na média. Tradicionalmente, esses profissionais ganham menos. Fatores como o reajuste do salário mínimo também podem ter contribuído para o crescimento do rendimento, conforme o instituto.

“A gente ainda não vê forte desaquecimento da atividade econômica e do mercado de trabalho. A taxa de desemprego piorou um pouquinho, em linha com o que se esperava, mas os números positivos são muito fortes ainda”, diz Fernando de Holanda Barbosa Filho, pesquisador sênior do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas).

“O copo está cheio [no mercado de trabalho], mas deve esvaziar um pouco ao longo do ano. O aumento dos juros tende a desacelerar a atividade econômica”, acrescenta.

O pesquisador trabalha com projeção de taxa de desemprego de 7,4% no trimestre até dezembro. Ele, contudo, não descarta que o governo Lula (PT) continue “apertando os botões” para manter a economia aquecida, o que traria novos desafios para o combate à inflação.

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