Parcela de pretos, pardos e indígenas em cargo de liderança na gestão federal chega a 39%

LUANY GALDEANO
RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS)

Mesmo com mudanças de gestão, a participação de homens e mulheres pretos, pardos e indígenas em posições de liderança no governo federal manteve uma tendência de crescimento desde 1999. Naquele ano, eles somavam 20% dos ocupantes dessas funções. No ano passado, essa parcela chegou a 39%.

Em todos os governos houve um aumento da fatia de pessoas pretas, pardas e indígenas em cargos de chefia na administração federal. Entre o início do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e o fim do primeiro de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o crescimento foi de seis pontos percentuais, chegando a 25%. No segundo mandato do petista, foi a 27%.

No primeiro mandato de Dilma, a cifra subiu para 29%. Depois, chegou a 31% no governo Temer (MDB). Na administração Bolsonaro (PL), passou para 38%.

O avanço foi mais tímido no alto escalão do governo, entre os quais estão os cargos de ministro e secretário. Em 2024, brancos e amarelos eram 72% dos líderes, enquanto pretos, pardos e indígenas, 28%.

Os resultados, divulgados nesta sexta (28), são do levantamento Lideranças Negras no Estado Brasileiro, feito pelo Afro-Cebrap (Núcleo de Pesquisa e Formação em Raça, Gênero e Justiça Racial), com apoio da Fundação Lemann e da Imaginable Futures.

O levantamento baseia-se em dados do Siape (Sistema Integrado de Administração de Recursos Humanos), do governo federal. Os pesquisadores separaram os líderes em dois grupos: pretos, pardos e indígenas foram todos colocados em um; brancos e amarelos -estes últimos são minoria-, ficaram em outro.

Os dados desagregados por cor não foram divulgados. Com isso, não é possível saber qual foi o crescimento de cada um deles no período. Para se ter uma ideia, o Censo mais recente, de 2022, mostrou que, pela primeira vez na história, pardos de tornaram o maior grupo étnico-racial do país, equivalente a 45,3% da população. O número de pretos e de indígenas também subiu na comparação com o Censo de 2010, chegando a 10,2% e 0,8%, respectivamente.

Também é importante mencionar que, no período analisado no estudo, aumentou a fatia de pessoas em cargos de liderança no governo federal que declaram sua cor. Em 1999, 8% das mulheres e 4% dos homens não o faziam. No ano passado, essas porcentagens caíram para zero.


Por ministério
No levantamento do Afro-Cebrap, foi feita uma compatibilização para ministérios que antes não existiam ou que já foram extintos em gestões passadas. No caso do Ministério dos Povos Indígenas, os dados remetem à Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas).

Já pastas que não tinham estruturas antigas, como o Ministério das Mulheres e o da Igualdade Racial, não foram consideradas entre os órgãos com maior número de lideranças, mas seus servidores ainda foram contabilizados no estudo.

Além da raça, o gênero também influencia em quão longe a liderança pode chegar. Ao todo, somando alto e baixo escalão, mulheres pretas, pardas e indígenas representam 15% das chefias, enquanto homens brancos e amarelos são 35%.

Instituições com servidores da elite do funcionalismo, como diplomatas e auditores da Receita Federal, têm ainda menos diversidade. Homens brancos e amarelos são 51% das chefias no Ministério de Relações Exteriores e 50% na Fazenda. Já mulheres pretas, pardas ou indígenas são, respectivamente, 7% e 9% das lideranças nesses mesmos órgãos.

Pastas vinculadas a políticas sociais apresentam o maior número de líderes pretos e pardos, segundo o levantamento. O Ministério dos Povos Indígenas tem a maior proporção de pretos, pardos e indígenas em cargos de chefia, em que homens são 39% e mulheres são 22%. Mulheres negras também somam 22% dos líderes na pasta de Cultura, e 21% em Esportes, Educação e Gestão.

De acordo com Flavia Rios, coordenadora de projetos do Afro-Cebrap, uma das possíveis explicações para o aumento de pessoas pretas, pardas e indígenas em posições de chefia é a instituição das assessorias de participação social e diversidade, distribuídas entre diferentes ministérios. A assessoria é responsável por fazer a interlocução entre o governo federal e a sociedade civil.

“O perfil que vai ocupar essa posição tem acesso direto ao gabinete do ministério. Vemos que são mulheres e pessoas negras com qualificação alta, mas que respondem à ideia de diversidade que o cargo exige.”

Os pesquisadores fizeram ainda entrevistas com 58 lideranças pretas, pardas ou indígenas, que estiveram em cargos de chefia em algum momento entre 1995 e 2024. A maioria era de pessoas que vieram de classes mais pobres, cujas famílias tinham menor nível de instrução. Eles também identificaram que a maior parte frequentou o ensino superior e tinha cursos de pós-graduação.

“O aumento da presença de pessoas negras em posições de liderança no Poder Executivo nos últimos anos representa um avanço importante, porém ainda insuficiente. Os dados revelam que há um trabalho significativo a ser realizado para garantir a equidade racial e de gênero no Brasil”, diz Alessandra Benedito, vice-presidente de Equidade Racial da Fundação Lemann.

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