Voto envergonhado

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Por Armando Cardoso*

Em um país tão dividido social, política e economicamente como o Brasil, o que pode nos unir? Bastam dois segundos de reflexão para se concluir que, caso haja alguma forma de união, ela é a sacanagem. Substantivo feminino e com o mesmo significado de safadeza ou fuleragem, a sacanagem é capaz de se expressar por meio de outros sinônimos e de variadas maneiras, entre elas o modo de agir de uma pessoa sacana, brincalhona ou sem caráter. No sentido familiar, é apenas uma gozação.

O termo degenera para uma devassidão prazerosa no caso de uma ação libidinosa que transgrida as normas sexuais consideradas comuns. No linguajar de botequim já fechado, é sentir sozinho arrepios que não são de medo nem de frio. É a cabeça proibir, o corpo desobedecer e nada acontecer. Ou – o que é pior -, uma cabeça não pensar, a outra agir e o bolso esvaziar. Talvez uma das mais marcantes seja, de madrugada, a gente sair acompanhado da balada com uma loira estonteante, do tipo Farrah Fawcett, e, antes mesmo da alcova, ainda no primeiro toque mais íntimo, descobrir que a quase Brigitte Bardot era na verdade Robert de Niro disfarçado de um ator metade cearense e metade gaúcho.

Sacanagem é ser obrigado a responder ao pneumologista que já tive os vícios do tabaco e da pororoca. Galhofa maior é usar fraldão e dizer aos amigos que voltei a ser criança. Por recomendação médica, tenho o máximo cuidado com a língua portuguesa. Meu medo é que confundam o repositório digital de minhas narrativas com o tal do supositório do código-fonte. Zombaria mesmo é lembrar que, sem margem de erros para cima ou para baixo, a maior das brincadeiras tem sido o ano de 2024, ápice da desunião. Ele só não foi pior do que 2023, quando tentaram repetir na Praça dos Três Poderes a Tomada da Bastilha de 1789. Em 2024, além da batalha a céu aberto em que se transformaram os debates políticos e, por extensão, a política nacional, o amor deixou de ser aquilo que me fazia sentir um calor tão intenso que, por pouco, metaforicamente eu não ardia em chamas.

Entendo todo tipo de molecagem. A única que ainda não entendi tem a ver com as eleições. Depois de anos de luta para conquistar o direito de votar soberana e livremente, percebo que os eleitores de hoje se dirigem às sessões eleitorais como se estivessem indo a um velório. Será o tal voto envergonhado? Parece que sim. Afinal, quem em sã consciência teria coragem de assumir voto em Pablo Marçal, Capitão fulano, Coronel beltrano, General ciclano ou Doutor não sei das quantas. Se a ideia é convencer, estimular ou ameaçar pelos títulos, o tiro saiu pela culatra. Acabou o medo.

Armando Cardoso é jornalista

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