TAPETÃO MARCHA LENTA

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Era um grande sonho do Gama bater o recorde de renda no futebol brasiliense, contando mais de 100 mil cruzeiros (moeda da época). Corria o terceiro campeonato de futebol profissional candango e o seu presidente, Ovando Lima, achava que havia chegado o momento de estabelecer a marca, na rodada em que a tabela marcava Gama x Brasília para o Bezerrão, onde o seu clube (time) sempre conseguia bons públicos.

 Pela contas do Osvando, o jogo, que era o principal do DF de então, poderia render até 150 mil cruzeiros (moeda de 1978)a, caso o Gama ganhasse, no tapetão, os pontos perdidos uma rodada antes para o Tagutinga, que era acusado de escalar, irregularmente, o centroavante Zecão.

O “Caso Zecão” era bom motivo para badalação. O Brasília, que havia empatado com o Águia (apelido do Taguá), também, queria recuperar o ponto perdido, e seu supervisor, Carlos Romeiro, vivia esculhambando a Federação Metropolitana de Futebol-FMF, por não cobrar agilidade do Tribunal de Justiça Desportiva-TJD, pois tanto Gama quanto Brasília queriam ir campo na liderança, evidentemente, contando com o que “recuperariam” dos perdidos diante dos taguatingueses.

  Os dois clubes (na verdade, times) sustentavam que o contrato de Zecão com o Taguatinga ainda não estava registrado junto à Confederação Brasileira de Desportos (futura CBF) e que o Boletim Nº 40/1978 da FMF se apressara em conceder-lhe condição de jogo, indevidamente. A FMF reconhecia a sua atitude, explicando ter-se antecipado à CBD porque esta o fazia assim que recebia os pedidos de registro de contratos. Só que, por aqueles dia, não o fizera.

 Rolo rolando, a FMF enviou ofício ao Brasília, solicitando calar Carlos Romeiro, para este “não ficar provocando prejuízos à imagem da entidade”. O supervisor, porém,  não se calou e questinou junto à imprensa: “O que ela (FMF) quer? A deliberação Nº 01/77 do Conselho Nacional de Desportos é clara sobre a condição de jogo do atleta”.

 Enquanto o Brasília batia boca com a FMF, Osvando Lima fazia cálculos sobre o quanto o Gama ganharia na rendas dos próximos dois jogos, contando passar por cima do Brasília e, no jogo seguinte, muito motivado, derreter o Grêmio Esportivo Brasiliense, que andava mais pra lá do que fracote. Enquanto isso, o TJD da FMF não dava sinais de quando julgaria a “Questão Zecão”.    

    Embora o treinador do Gama fosse Jaime dos Santos, quem falava pelo time era o Osvando, que mandava ver: “Niltinho (centroavante) e Quidão (zagueiro) que não enfrentaram o Taguatinga, estarão de volta, reforçando as moçada, que não vai mais entregar dois gols, como entregou para o “Taguá”. Além disso, Júlio (meio-campista) deve entrar pela ponta-direita, porque o Alves foi figura apagada no jogo passado. Teremos equipe pronta pra correr 120 minutos. O professor Vanderlei Sales (preparador físico) está caprichando com a rapaziada, pra deixar o Brasília com a língua de fora” – cartava. 

 Criticado por Marcelo Ramos, durante programa da Rádio Capital, por causa da sua falação, passando por cima do treinador, Osvando Lima rebateu: “Jaime não paga o salário de ninguém. Quem paga sou eu. Tenho de me virar pra motivar o povão” – e motivava mesmo. 

Chegado o domingo do jogo este começou com um incidente. O treinador do Brasília, Cláudio Garcia, que havia ido ao Bezerrão no carro dele (viajaria depois da partida e, do Bezerrão, já pegaria estrada) não consegui entrar no estádio, porque o porteiro alegava não conhecê-lo e não ter provas de que ele seria o que dizia. Foi preciso ele comprar ingresso para reencontrar a sua rapaziada, que já perdia, por 0 x 1, com o gol gamense marcado pelo centroavante Cláudio, que estava subindo do juvenil para o time principal.

 As discussões da semana levaram bom público ao Bezerrão, que ficou perto de lotar. O Brasília, que tinha time bem ajustado, não se abalou com a falta inicial do seu treinador e chegou ao empate, que perdurou até o final da pugna.

 Enfim, o Gama não venceu, não saiu de campo líder e nem bateu o recorde de renda. Vaiado pela torcida, por ter falado muito e nada acontecido, Osvando Lima arrumou logo um jeito de fugir dos apupos: “Vamos pedir exame antidoping do time do Brasilia. Eles correram mais do que um coelho, do que o homem biônico” – não colou. Daquela vez, o presidente do Conselho Deliberativo do Gama, Márcio Tanus de Almeida, conseguiu calá-lo, lembrando de que em Brasília não havia laboratório credenciado pela CBD para tal tipo de exame, nem mesmo o da Polícia Federal. Só assim Osvando prendeu a língua. 

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