Decisão de Bezos é um golpe contra a pluralidade de ideias

(Foto: Мария Сусоева/Pexels)

A decisão de Jeff Bezos de remodelar a página de opinião do The Washington Post para priorizar “liberdades individuais e mercados livres” é um golpe contra a pluralidade de ideias e um exemplo flagrante da captura da imprensa por interesses corporativos. A justificativa de que a internet já oferece diversidade de opiniões e, portanto, o jornal pode se restringir a uma linha editorial específica, é um argumento falacioso.

O papel da imprensa nunca foi apenas refletir debates já existentes, mas estruturá-los de forma crítica e aprofundada. Ao limitar a página de opinião a uma visão de mundo específica, Bezos transforma um dos jornais mais influentes do mundo em um panfleto a serviço de uma agenda particular.

A imprensa deveria ser um contraponto ao poder econômico, mas nesse caso, está se tornando um braço auxiliar dele.

A demissão de David Shipley, editor responsável pela pluralidade da página de opinião, demonstra que essa mudança não é uma simples reorganização editorial, mas um expurgo ideológico. Bezos está eliminando do jornal qualquer possibilidade de dissenso, enfraquecendo o jornal como um espaço de debate legítimo e o transforma em uma máquina de validação para um conjunto restrito de ideias.

A diversidade de opiniões é essencial para a democracia, e a imprensa tem o dever de dar espaço a diferentes perspectivas. Ao abdicar dessa responsabilidade, Bezos rebaixa o Post de veículo de referência a um megafone de interesses privados.

O caso de Bezos não é isolado. A compra de jornais por magnatas tem se tornado um fenômeno recorrente, de Elon Musk manipulando a moderação de conteúdo no X à Fox News operando como um braço ideológico de seus proprietários. O que diferencia Bezos é a sofisticação da estratégia: em vez de atacar diretamente a liberdade de imprensa, ele a sufoca de maneira cirúrgica, moldando o debate dentro de parâmetros que favorecem seu próprio poder. Isso é ainda mais perigoso do que uma censura explícita, pois disfarça o controle sob o verniz de uma decisão editorial legítima.

O Washington Post tem uma história de jornalismo investigativo que já desafiou governos e corporações. Sob a liderança de Bezos, essa tradição está sendo corroída. O que Bezos está fazendo não é inovação editorial, é sabotagem da função essencial da mídia.

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Fabio Alperowitch é administrador de empresas (FGV), fundou a fama re.capital, gestora de Investimentos Responsáveis, em 1993. Além disso, já fundou 4 ONGs e atualmente é conselheiro de diversas organizações do terceiro setor, como Instituto Ethos, WWF Brasil e Pacto pela Equidade Racial

 

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